domingo, 12 de janeiro de 2014

Quer em pé, quer sentado sem me mexer, eu sou capaz de pensar


O melhor professor que já tive, um homem musical e agradavelmente arredondado, uma vez me falou sobre a capacidade mágica que os livros têm de chegar até a nossa porta no momento em que mais precisamos. No final deste último Dezembro, escandalosamente quente em Porto Alegre, meu belíssimo irmão gêmeo que é também meu melhor amigo e meu roomate foi embora para a Bélgica. Minhas duas irmãs mais velhas já haviam me chocado com suas capacidades de viver a própria vida. Longe daquilo que primeiro entendi como mundo (nós quatro, minha mãe e meu pai), meus antigos companheiros de aventuras, risos, pancadas e encantamentos se apaixonaram, tiveram filhos, e revelaram sem piedade que nós crescemos e somos adultos e que minha mãe é avó de alguém. Eu sou o caçula e nunca acreditei realmente que as coisas fossem mudar. Mas então elas mudaram e eu desenvolvi pedra nos rins. Porém, antes que eu perdesse a razão de vez e passasse a cultivar meus diminutos e perversos cálculos como substitutos para meus irmãos independentes, ouvi a campainha. Era minha mãe, infalível, carregando um peru amarelo nos braços. Foi assim que "As Correções" de Jonathan Franzen, se fez presente quando eu mais necessitava.

   


Um tremor na pradaria, alguma coisa terrível estava a ponto de acontecer, um alarme invisível que dispara, feito sineta de escola, fazendo zunir não ondas sonoras, mas vagalhões de ansiedade:


Bem vindo ao meio-oeste americano.

Jonathan Franzen abre sua longa narrativa nos jogando sem o menor pudor na intimidade algo enternecedora, algo degradante, algo cômica de um casal de pessoas bastante velhas. Ela é a capitã da casa, a guardiã da ordem, do bem estar, da decência, das correspondências! É a esposa de mil perguntas sempre prontas a resgatar o marido de seu estado de torpor. Ele, um homem alto extremamente rabugento, aparentemente só quer saber de refugiar-se no porão, mais especialmente em sua grande poltrona Azul. Estes são Enid e Alfred, os, digamos, rei e rainha da tragicômica dinastia Lambert. É impressionante a capacidade do autor de, em menos de vinte páginas, nos fazer compreender visceralmente as tensões que movimentam aqueles personagens em sua morada de quinquilharias, manchas disfarçadas e cheiros de urina em lugares impossíveis.


Alfred Lambert sofre de Parkinson. Eu nunca tinha parado para pensar em mal Parkinson. Alzheimer foi a doença que matou minha avó, então até tenho certa familiaridade com seu funcionamento, mas como eu não gostava dela também nunca pensei muito nesse significante germânico, o maior dos ladrões de sanidade. Mas então tive pedra no rim. Eu estava preso a um corpo que doía e que não me explicava porque doía, e que não me murmurava com aquela cumplicidade que eu achava garantida um segura rota de fuga. Nós, enquanto pessoas, somos plantinhas frágeis que quebram ficam amarelas e apodrecem. Fiquei tão desesperado. O corpo como prisão apresentou-se a mim aos 25 anos. Mas não somos realmente plantinhas, então nossos amarelecimentos, rasgos, cortes e securas dão-se de maneiras nada simples, nada rápidas, nada vegetais. Somos capazes de maleitas inimagináveis, cruéis, aterradoras, na mesma medida em que somos capazes de conceber a beleza da dança, do cinema, dos pavões. Alfred Lambert foi uma iluminação. Ao ler a passagem (que transcrevo abaixo) em que Enid  faz uma pergunta ao marido e a maneira como o processo dele para responder funciona, me fez perceber que não há de fato uma perda de capacidade.  Há semelhanças entre esse par tão doloroso e aquele deslumbrante casal retratado por Haneke no filme Amour.  É um problema de comunicação. É tão simples, e ao mesmo tempo tão desesperador.

"Al? O que é que você está fazendo?"

Ele se virou para a porta de onde ela aparecera. Balbuciou uma resposta, 'Estou...', mas quando era surpreendido, todas as suas frases viravam aventuras na floresta; assim que deixava de ver a luz da  clareira por onde entrara, percebia que as migalhas que deixara cair tinham sido comidas pelos passarinhos, animaizinhos rápido, hábeis e silenciosos que ele sequer conseguia distinguir na penumbra mas que eram tão numerosos e enxameantes em sua fome que davam a impressão de serem eles próprios a escuridão, como se a escuridão não fosse uniforme, não uma ausência de luz mas uma abundância de componentes."



Alfred Lambert me fez lembrar de Jean Dominic Bauby (autor de O escafandro e a Borboleta, único homem que eu conheço que escreveu um livro com o olho - vítima de um derrame que teve como sequela a chamada locked-in syndrome, Jean conservou como forma de contato com o mundo apenas a mobilidade de sua pálpebra esquerda. Com a ajuda de uma enfermeira que ia apontando letras do alfabeto em um tabuleiro ele escreveu sua história). E eu fiquei tão apavorado. Todos os chamados inválidos, dementes, incapazes, hão de preservar algo de sua claridade. É tão terrível que nosso mundo tão pretensamente moderno classifique como incapacidade, como deficiência, o comportamento de alguém que sem escolha alguma vai perdendo suas ferramentas de comunicação. Não é porque a ponte entre mim e você deixou de existir que eu me tornei um vegetal. O mesmo vale para você. É tão desolador pensar no quão está institucionalizada essa visão de que estamos a um passo de tornarmo-nos descartáveis.

Todos pensam. Todos dóem.



Após seu início acachapante, com variações de estímulos capazes de fazer sorrirem os devotos mais exigentes da arte escrita, Franzen nos apresenta os filhos de Enid e Alfred. São três, os frutos adultos. Gary, Chip e Denise. É inacreditável a sensação de que os acompanhamos em seus momentos mais vulneráveis, vexatórios, impossíveis e, talvez por isso mesmo, se mostra tão fácil nos apaixonarmos por esses personagens tão errados e maravilhosos.

A linha temporal é trabalhada de maneira muito competente. As idas e vindas não são enfadonhas ou confusas, ao contrário, servem de ferramenta para que tudo pareça cada vez mais vivo.

Aquele Chip que fugiu do almoço com os pais que foram visitá-lo se torna tão mais próximo quando o acompanhamos na busca por um botão em uma cadeira estofada, um botãozinho, impregnado com o cheiro do sexo de sua última namorada. Como é desagradável carregar, com ele, um salmão dentro das calças.

Gary e suas tabelas e marcadores pesquisados em manuais de doença mental, sempre tentando convencer-se de que não está deprimido (afinal de contas ele é rico, é casado, tem filhos, e seria algo impensável que essa configuração dourada tão proclamada não seja, enfim, garantia de uma felicidade incontestável).

Denise, a única menina da prole Lambert, e suas desonras colecionadas, suas perversidades, sua maravilhosa autonomia.


A trajetória dos personagens ao longo das mais de 500 páginas se torna cada vez e sempre mais incrível, verdadeira, e familiar. É dificílimo deixá-los partir. Enid e Alfred no cruzeiro estarão para sempre entre minhas memórias mais alucinantes.

É um livro imprescindível, fabuloso, fascinante, faiscante! É um livro difícil de roubar, porque é bem grande, mas se você tiver uma bolsa exagerada e um amigo com bom gosto literário, marque um café no apartamento dele, finja interesse, e quando ele for ao banheiro, jogue para dentro de seus panos esse mundo inteiro que me deixou tão mais pronto para lidar com o fato de que o tempo passa. Me sinto tão menos errado.


Enid, Alfred, Chip, Denise, e até mesmo você Gary, amo vocês e vou morrer de saudades.

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