domingo, 12 de janeiro de 2014

Quer em pé, quer sentado sem me mexer, eu sou capaz de pensar


O melhor professor que já tive, um homem musical e agradavelmente arredondado, uma vez me falou sobre a capacidade mágica que os livros têm de chegar até a nossa porta no momento em que mais precisamos. No final deste último Dezembro, escandalosamente quente em Porto Alegre, meu belíssimo irmão gêmeo que é também meu melhor amigo e meu roomate foi embora para a Bélgica. Minhas duas irmãs mais velhas já haviam me chocado com suas capacidades de viver a própria vida. Longe daquilo que primeiro entendi como mundo (nós quatro, minha mãe e meu pai), meus antigos companheiros de aventuras, risos, pancadas e encantamentos se apaixonaram, tiveram filhos, e revelaram sem piedade que nós crescemos e somos adultos e que minha mãe é avó de alguém. Eu sou o caçula e nunca acreditei realmente que as coisas fossem mudar. Mas então elas mudaram e eu desenvolvi pedra nos rins. Porém, antes que eu perdesse a razão de vez e passasse a cultivar meus diminutos e perversos cálculos como substitutos para meus irmãos independentes, ouvi a campainha. Era minha mãe, infalível, carregando um peru amarelo nos braços. Foi assim que "As Correções" de Jonathan Franzen, se fez presente quando eu mais necessitava.

   


Um tremor na pradaria, alguma coisa terrível estava a ponto de acontecer, um alarme invisível que dispara, feito sineta de escola, fazendo zunir não ondas sonoras, mas vagalhões de ansiedade:


Bem vindo ao meio-oeste americano.

Jonathan Franzen abre sua longa narrativa nos jogando sem o menor pudor na intimidade algo enternecedora, algo degradante, algo cômica de um casal de pessoas bastante velhas. Ela é a capitã da casa, a guardiã da ordem, do bem estar, da decência, das correspondências! É a esposa de mil perguntas sempre prontas a resgatar o marido de seu estado de torpor. Ele, um homem alto extremamente rabugento, aparentemente só quer saber de refugiar-se no porão, mais especialmente em sua grande poltrona Azul. Estes são Enid e Alfred, os, digamos, rei e rainha da tragicômica dinastia Lambert. É impressionante a capacidade do autor de, em menos de vinte páginas, nos fazer compreender visceralmente as tensões que movimentam aqueles personagens em sua morada de quinquilharias, manchas disfarçadas e cheiros de urina em lugares impossíveis.


Alfred Lambert sofre de Parkinson. Eu nunca tinha parado para pensar em mal Parkinson. Alzheimer foi a doença que matou minha avó, então até tenho certa familiaridade com seu funcionamento, mas como eu não gostava dela também nunca pensei muito nesse significante germânico, o maior dos ladrões de sanidade. Mas então tive pedra no rim. Eu estava preso a um corpo que doía e que não me explicava porque doía, e que não me murmurava com aquela cumplicidade que eu achava garantida um segura rota de fuga. Nós, enquanto pessoas, somos plantinhas frágeis que quebram ficam amarelas e apodrecem. Fiquei tão desesperado. O corpo como prisão apresentou-se a mim aos 25 anos. Mas não somos realmente plantinhas, então nossos amarelecimentos, rasgos, cortes e securas dão-se de maneiras nada simples, nada rápidas, nada vegetais. Somos capazes de maleitas inimagináveis, cruéis, aterradoras, na mesma medida em que somos capazes de conceber a beleza da dança, do cinema, dos pavões. Alfred Lambert foi uma iluminação. Ao ler a passagem (que transcrevo abaixo) em que Enid  faz uma pergunta ao marido e a maneira como o processo dele para responder funciona, me fez perceber que não há de fato uma perda de capacidade.  Há semelhanças entre esse par tão doloroso e aquele deslumbrante casal retratado por Haneke no filme Amour.  É um problema de comunicação. É tão simples, e ao mesmo tempo tão desesperador.

"Al? O que é que você está fazendo?"

Ele se virou para a porta de onde ela aparecera. Balbuciou uma resposta, 'Estou...', mas quando era surpreendido, todas as suas frases viravam aventuras na floresta; assim que deixava de ver a luz da  clareira por onde entrara, percebia que as migalhas que deixara cair tinham sido comidas pelos passarinhos, animaizinhos rápido, hábeis e silenciosos que ele sequer conseguia distinguir na penumbra mas que eram tão numerosos e enxameantes em sua fome que davam a impressão de serem eles próprios a escuridão, como se a escuridão não fosse uniforme, não uma ausência de luz mas uma abundância de componentes."



Alfred Lambert me fez lembrar de Jean Dominic Bauby (autor de O escafandro e a Borboleta, único homem que eu conheço que escreveu um livro com o olho - vítima de um derrame que teve como sequela a chamada locked-in syndrome, Jean conservou como forma de contato com o mundo apenas a mobilidade de sua pálpebra esquerda. Com a ajuda de uma enfermeira que ia apontando letras do alfabeto em um tabuleiro ele escreveu sua história). E eu fiquei tão apavorado. Todos os chamados inválidos, dementes, incapazes, hão de preservar algo de sua claridade. É tão terrível que nosso mundo tão pretensamente moderno classifique como incapacidade, como deficiência, o comportamento de alguém que sem escolha alguma vai perdendo suas ferramentas de comunicação. Não é porque a ponte entre mim e você deixou de existir que eu me tornei um vegetal. O mesmo vale para você. É tão desolador pensar no quão está institucionalizada essa visão de que estamos a um passo de tornarmo-nos descartáveis.

Todos pensam. Todos dóem.



Após seu início acachapante, com variações de estímulos capazes de fazer sorrirem os devotos mais exigentes da arte escrita, Franzen nos apresenta os filhos de Enid e Alfred. São três, os frutos adultos. Gary, Chip e Denise. É inacreditável a sensação de que os acompanhamos em seus momentos mais vulneráveis, vexatórios, impossíveis e, talvez por isso mesmo, se mostra tão fácil nos apaixonarmos por esses personagens tão errados e maravilhosos.

A linha temporal é trabalhada de maneira muito competente. As idas e vindas não são enfadonhas ou confusas, ao contrário, servem de ferramenta para que tudo pareça cada vez mais vivo.

Aquele Chip que fugiu do almoço com os pais que foram visitá-lo se torna tão mais próximo quando o acompanhamos na busca por um botão em uma cadeira estofada, um botãozinho, impregnado com o cheiro do sexo de sua última namorada. Como é desagradável carregar, com ele, um salmão dentro das calças.

Gary e suas tabelas e marcadores pesquisados em manuais de doença mental, sempre tentando convencer-se de que não está deprimido (afinal de contas ele é rico, é casado, tem filhos, e seria algo impensável que essa configuração dourada tão proclamada não seja, enfim, garantia de uma felicidade incontestável).

Denise, a única menina da prole Lambert, e suas desonras colecionadas, suas perversidades, sua maravilhosa autonomia.


A trajetória dos personagens ao longo das mais de 500 páginas se torna cada vez e sempre mais incrível, verdadeira, e familiar. É dificílimo deixá-los partir. Enid e Alfred no cruzeiro estarão para sempre entre minhas memórias mais alucinantes.

É um livro imprescindível, fabuloso, fascinante, faiscante! É um livro difícil de roubar, porque é bem grande, mas se você tiver uma bolsa exagerada e um amigo com bom gosto literário, marque um café no apartamento dele, finja interesse, e quando ele for ao banheiro, jogue para dentro de seus panos esse mundo inteiro que me deixou tão mais pronto para lidar com o fato de que o tempo passa. Me sinto tão menos errado.


Enid, Alfred, Chip, Denise, e até mesmo você Gary, amo vocês e vou morrer de saudades.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Dói, mas é bom

Sempre tive uma queda por mulheres austríacas, especialmente as de cara quadrada, de penteado ligeiramente amish, fumantes, e que batem na própria mãe.

A pianista, escrito pela agorafóbica Elfriede Jelinek, me fez admirar como nunca a violência como instrumento literário. Ao longo de uma narrativa sórdida, íntima e fascinante, o leitor é constantemente machucado pelas palavras, mas a dor nunca é simplesmente dor, é como levar uma mordida safada ou um beliscão erótico: dói, mas é bom (não adianta negar).

Erika Kohut é uma professora de piano de seus trinta e cinco anos que mora com sua mãe em um pequeno apartamento. Erika compra vestidos às escondidas de sua mãe. Erika e sua mãe puxam os cabelos uma da outra, se empurram, se arranham. Erika tem um quarto sem cama e sem fechadura.


Ao adentrar esse microcosmos feminino, todos os conceitos de relação mãe/filha que possamos ter devem ser imediatamente atirados pela janela! Nada ali é convencional, cognoscível, nada ali é familiar. A ordem das coisas opera sob uma lógica própria e cruel.




A mãe de Erika a criou baseada na inabalável crença de que a filha era superior às demais pessoas. Erika foi criada para fazer música, para ser uma nobilíssima fazedora de música. Os desdobramentos dessa vontade materna são terríveis, desde sempre Erika sabe que não deve, que não pode se sujar com a vulgaridade onipresente da realidade das pessoas comuns. Até aí tudo bem, existem mães versadas em tantas formas de maldade, eu sinceramente não vejo com pavor uma mãe que queira ter uma filha de maneiras elegantes, focada em sua arte e de preferências refinadas. O problema é que para mamãe Kohut toda a forma de experimentação é uma vulgaridade.

À Erika está negada a possibilidade de experimentar o mundo, de testar-se, de desenvolver-se plenamente como mulher. Ela deve viver para a música, como monja, deve obedecer a padrões de comportamento irreais que na cabeça da mãe configuram virtudes imprescindíveis para uma boa artista. Ela, Erika, vira uma espécie de prisioneira de seu talento (do talento que a mãe lhe atribui). É realmente incrível e irresistível essa idéia de subjugação alimentada por um sistema de elogios e superioridade.



Eu sempre tive inveja dos músicos. Para mim, a música como meio de vida configura de pronto um modo de viver fundamentalmente fugidio, floreado e dionisíaco. Este romance maravilhoso (e tenebroso) me apresentou o universo dos sons e canções de maneira inédita. A perfeição do instrumentista se apresenta muito mais como dolorosa construção (parecida com a obsessão das bailarinas), do que como exercício edificante, divertido e livre. Ser um músico genial exige do aventureiro muito mais do que eu jamais imaginei. Hoje vejo os virtuoses sob outro prisma, eles ainda mantêm sua aura de nobreza, mas são quase amaldiçoados, são pessoas que carregam no tornozelo esquerdo pesadas bolas de ferro cuja chave foi engolida pela vontade.



O tempo passa, Erika vira adulta. Ela não é uma instrumentista de fama internacional, é simplesmente uma professora de piano. Essa não-realização me parece ingrediente importantíssimo para manutenção de seu jogo com a mãe. Apesar de tudo, a mãe vê em Erika a melhor. Por mais doentia que pareça a relação entre as duas, uma coisa é inegável: no fim das contas elas têm apenas uma à outra.

Erika é violenta, ela tem nojo das pessoas comuns, (é sensacional ver que os austríacos podem ser comuns, imundos, como a maioria das pessoas, como os gaúchos), ela reage a tudo com raiva. Como um porco-espinho musical, a professora de piano sente prazer em pegar o bonde vienense carregada de instrumentos e espetar os passageiros; e não apenas espetá-los, ela também gosta de beliscá-los, chutá-los, pisá-los. A consciência de que uma mulher elegante como ela jamais será suspeita de atos desse tipo faz vibrar emocionado o seu coração deformado. Talvez o grande tema do romance seja justamente este: a deformação do coração de Erika.

A privação absoluta à qual a protagonista se submeteu durante a vida fez com que todos os seus desejos se mantivessem encarcerados, e aos poucos fossem sofrendo mutações. Os efeitos dessas mutações (imprevisíveis e potencialmente nefastos) são o que regem o comportamento aparentemente doentio de Erika.

Aqui tenho de fazer uma pausa. Sinto uma identificação louca com essa personagem, sinto que somos feitos, ao menos em parte, do mesmo material. A mim foi negada a experimentação amorosa, a livre expressão de minha natureza, por muitos anos vivi em cárcere privado (ainda que imaginário). A consciência de que meus desejos eram errados assombrou minha vida até os dezoito anos. Sei perfeitamente como desejos irrealizados podem ser danosos, sei bem como podemos nos banhar na sordidez na primeira oportunidade que nos aparece por uma simples vontade de respirar.



Erika é uma professora tirana, malvada, inatingível. É do tipo de sujeita à qual nos dobramos em reverências apenas por seu modo de movimentar-se, aristocrático, ruivo, magro e musical.

Erika não quer sufocar. Erika se corta (cenas horrendas). Erika espia casais fodendo ao ar livre (cenas eletrizantes). Erika cheira líquidos masculinos em papéis higiênicos derrubados no chão de cabines de peep show. É inacreditável perceber que esta é a mesma Erika professora, um verdadeiro privilégio poder invadir suas particularidades, às vezes parece que estamos remexendo em memórias que nos são proibidas e que a qualquer momento seremos repreendidos e surrados.



Há ainda uma certa qualidade florestal, de bosque encantado, na narrativa. De quando em quando aparece no texto uma inspirada referência de natureza, mas sempre com uma nota macabra. A mãe de Erika pensa em certo momento: “O tempo é uma planta carnívora extremamente cruel”. A maneira como a autora fala da chegada da primavera na Áustria, por exemplo, é surreal! Junto com as flores, a primavera traz consigo uma onda de acidentes de trânsito. Maravilhoso!


Erika então, se apaixona, por um aluno! Klemmer, o sedutor!


Ele parece um pavão, ela uma galinha velha. A dança romântica entre o pavão exuberante e a galinha depenada é de uma violência delirante, hipnótica, mas nunca gratuita. Não entrarei em maiores detalhes descritivos sobre a relação entre os dois, creio que há de se preservar certo mistério.


Horror, sangue, hematomas, tropeços, destroços, lâminas afiadas.
"A pianista" não é um livro. É um furacão.

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obs:

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O filme baseado no livro (em português "A professora de piano"), ganhador de três prêmios em Cannes (Grand Prix, Atriz e Ator), é deslumbrante! Michael Haneke é um diretor genial!!! Isabelle Huppert é a melhor atriz do mundo, a interpretação de Erika é devastadora!!! O rapaz que faz o estudante Walter Klemmer, Benoît Magimel, é maravilhoso (e lindo!).

* O romance é baseado na vida da autora. Incrível.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Foguetório!

Dois amigos meus tinham voltado da Bahia. Fazia mais de uma semana que tinham retornado e nada de eu me dignar a visitá-los. Minha negligência não é desamor, mas preguiça e apreço pela paz que construo deixando o chão varrido, a colcha do sofá menor bem esticada, o livro da vez acomodado ao meu lado e cigarros recém comprados. “Temos que te dar teu presente de aniversário”, disse o meu amigo, o rapaz do casal de viajantes. Eu sou baixo e me vendo fácil, cinco minutos mais tarde estava rumando em direção ao apartamento da cidade baixa.



As histórias eram deliciosas, as imagens captadas com a câmera comprada em conjunto (meu irmão e o Fábio dividem mensalmente os gastos, acho revigorante essa vontade e esse movimento de gente jovem e artística) eram coloridas e cheias de vida. Foi um festival de caranguejos, melancias, a rua onde Elba Ramalho travou conhecimento com alienígenas, o show surpresa de Reginaldo Rossi, a praia, os coqueiros, uma igreja que parece flutuar quando é noite de lua cheia. Foi uma noite adorável, e ainda voltei para casa com meu presente, um livro, Todos os fogos o Fogo.



Do Cortázar eu apenas tinha lido “A casa tomada”, um conto fascinante e que acredito ser distribuído por fadas disseminadoras de cultura entre as pessoas de coração literário. Digo isso, das fadas, por que muitos dos meus amigos já o leram, e eles nunca sabem dizer onde leram, nem quando, mas todos o amam.

Meu amigo Fábio adora o Cortázar, é um moço que tem amor à literatura, à música, ao cinema, e às suas convicções ideológicas. Confesso que suspeitei que o livro talvez fosse panfletário, ou demasiadamente político, não sei, imaginei que fosse o Fábio tentando me convencer de algo, e deixei o livro em stand by. Bobagem minha, o livro é sensacional.


Cada conto de todos os fogos o fogo é uma experiência nova, um exercício inédito. O autor joga seu leitor de um canto ao outro, sem a menor cerimônia. Pá, se vira agora meu bem, diz ele rindo enquanto o chão e as paredes que construímos desaparecem.

Comecei por “A saúde dos doentes”. O conto é uma maravilha, a sensação que eu tive foi a de um filme da Lucrecia Martel, personagens familiares jogados em cenas sem recursos fáceis de dramaturgia, situações constrangedoras, absurdas, mas tudo com realismo de ares pantanosos, charmoso e decadente, e de dar medo. A família, enquanto unidade, é um colapso nervoso prestes a arrebentar. O mundo deve ser feito de notícias amenas, mas como? É interessante pensar que não há a obrigatoriedade de acontecimentos felizes para a manutenção de um bem estar da mamãe que não pode sofrer abalos, apenas é requisitada a ausência do sinistro. E o acaso opera de forma a esfregar na cara de todos, "quem manda aqui sou eu, não há esconderijo".

Depois li “a senhorita Cora”, e aí sim a coisa começou.


Nada em “A senhorita Cora” realmente acontece. Não há ação, há impressão. Em um fluxo delirante tropeçamos no íntimo de personagens diferentes, às vezes em uma mesma frase. O protagonista da vez muda em um ritmo de impossível previsão, é uma loucura. O mais interessante é que apesar da inovação da forma o conto não se resume a uma novidade sensorial, os personagens são densos e é como se os pegássemos no momento mais particular de suas intimidades quando a "câmera literária" aponta um deles.


“Reunião” abre com uma frase de Che Guevara, pronto, pensei. Meu pai era guerrilheiro, na Argentina, há milhões de anos. Não sei direito o porquê, mas tenho certa resistência a temáticas políticas, talvez seja a lembrança de meu pai enlouquecendo às vezes e confessando para fantasmas, em voz baixa, seus assassinatos e coisas do gênero; se bem que eu não dava realmente bola ao que ele falava quando começava a falar do passado. Acho que o mais provável seja a bagunça. Eu não gosto de bagunça, e revoluções me parecem uma grande bagunça, um cenário pós-apocalíptico, copos jogados, meias jogadas, livros com páginas rasgadas.

Meu Deus como foi esclarecedora para mim essa leitura. Meus conceitos revolucionários sofreram séria mudança. Pela primeira vez entendi que a bagunça é necessária para que seja possível um mundo onde as pessoas realmente desenvolvam seus potenciais humanos, sua sensibilidade. Na época obscura em que as revoluções brotaram, Deus do céu, eram mais que necessárias. Depois da dolorosa companhia que fiz aos rebeldes em sua cruzada por matos e florestas sombrias, fiquei com o sentimento de que algum dia, talvez, eu faça parte, à minha maneira, de alguma revolução, tão necessária.

“A auto-estrada do sul” é um triunfo. O microcosmos destruído. Sou viciado em microcosmos efêmeros, minha vida às vezes se parece com um desfile de ruínas. A angústia e o senso de construção de um mundo novo são tão reais, é assustador. E não apenas isso, mas o fato de o texto esconder os sentimentos de quase todos os personagens e mesmo assim nos sentirmos mergulhados no congestionamento, é realmente uma jóia.

Todos os fogos o fogo”, o conto-título, é mais um incrível exercício de linguagem, dessa vez com a sobreposição não de personagens, mas de histórias diversas no tempo e espaço. Vou falar sobre coisas que acontecem durante o texto, se alguém não quiser estragar surpresas não continue. Confesso que na minha interpretação o enredo da antiguidade (chato) se passa na televisão da casa do personagem que fala ao telefone com uma mulher. É como se enquanto ele falasse com a Jeanne, o filme se desenvolvesse na tela. Inclusive a pirotecnia final seria uma espécie de amálgama entre as duas histórias antes distantes, juntas finalmente em um significado único e ritualístico. Para ser bem sincero, o conto em si não me encantou, acho que o exercício (este sim sensacional) sobrepujou a história, e no fim eu sempre quero é uma boa história, independente de como ela aconteça. O que realmente é genial nesse conto é a piração dos telefones. As linhas cruzadas são deslumbrantes, o homem invisível que fala números no além é uma obra-prima!

Foi muito bom esse sacolejar desenfreado. As estruturas são móveis, claro!, obrigado Cortázar. Chão não precisa ser chão, nada precisa ser nada. O que fica é uma sensação boa e aventureira. Me sinto, incontestavelmente, mais livre.

O penteado quer dizer muita coisa

A edição de “Os embaixadores” lançada pela CosacNaify é daquelas que dá vontade de dar uma dentada. É uma sobremesa, perfeitamente confeitada, um gesto de amor, é prova de carinho como a corda mi que o Adoniran Barbosa ofertou, na música e na vida, para sua namoradinha. O único problema, um descuido, é um erro no texto da contracapa escrito pelo Modesto Carone (escritor e conhecido, ao menos por mim, por ser o tradutor de Kafka para a companhia das letras), talvez bêbado, que confunde a esplendorosa Marie de Vionnet com a insuportável viúva, ironicamente batizada Mrs. Newsome. Ironicamente, eu digo, porque não há e jamais haverá algo de novo (something new) no convivo com essa estandarte do pré-estabelecido.





O livro conta a história do maravilhoso e charmosérrimo Lambert Stretter, um senhor de respeitabilidade inquestionável que é enviado de sua província americana para resgatar um herdeiro de família próspera das garras libertinas de uma Paris que os americanos enxergam como um monstro que usa saia e tem mil pernas sedutoras. Quanta sofisticação na maneira de escrever, Jesus! Como em uma conversa entre japoneses, o que importa é o que não é dito. É um desafio quase grande demais tentar abrir com um facão os matagais quase indestrutíveis do processo de pensamento e das intenções de cada personagem.




Eles são quase todos pessoas velhas, no sentido de que são adultos e de que lhes devemos respeito. Juro que se eu usasse chapéu, tirá-lo-ia da cabeça cada vez que uma das senhoras elegantes da trama anunciasse sua chegada através de letras combinadas. Lambert Stretter é o rei absoluto da racionalização. Tudo que alguém faz em sua presença é material rico para um sem fim de elocubrações refinadíssimas acerca do porquê das possíveis implicações do gesto em questão. Se fulaninha mexe no cabelo durante o passeio matutino, pode esperar, Stretter vai dissecar a alma da mocinha em cinco minutos.






Ter esse contato diário com uma mente tão espetacular quanto a de Stretter nos torna, ao longo do texto, mais inteligentes. Para sermos capazes de penetrar na verdade do romance, opera-se em nosso cérebro e coração por meio de mãos invisíveis uma melhora em nossas capacidades. Escrúpulos, verdades, esplendor, todas essas palavras gravitam em torno de uma trama que se desenvolve, basicamente, na cabeça de Stretter, estimulada por tantas novidades de mundo. A trama é tão mínima que quando algo acontece concretamente nos seguramos onde quer que estejamos sentados para nos preparamos e agüentarmos o golpe. Há um desenvolvimento de apreciação por tudo o que nos envolve. Tem um trechinho que exemplifica essa ideia perfeitamente:

‘Bem, suponho que o responsável seja o destino que nos aguarda, a sinistra trama que nos enreda. Quero dizer que são elementos com os quais não podemos contar. Só disponho de meus parcos meios humanos. Não executamos o jogo recorrendo ao inexplicável. Entregamos toda a nossa energia no sentido de enfrentá-lo, de seguir-lhe o rastro. A verdade é que queremos, não vê’, ele confessou, tomado por um ar estranho, ‘desejamos apreciar um fenômeno assim tão raro. Digamos então que seja a vida’, procurou explicar, ‘digamos que seja a pobre vida, essa nossa velha conhecida, que nos pega de surpresa. Nada altera o fato de que a surpresa paralisa, ou de todo modo absorve... quase tudo que vemos, com mil diabos, que podemos ver.’ ”


Dentre os múltiplos personagens, acho que vale citar a melhor coadjovante inventada da história da literatura, Mrs. Barrace. Ela é implacável, tem ares de mulher louca, mas é, como todos os demais, educadíssima.




É um livro deslumbrante, divertidíssimo (não conseguia largar um minuto), e aquece o coração tanto quanto nos enche de polidez.



Eu sou um rapaz bem educado. Eu tenho consciência de minha boa educação. Esses dias mesmo, em um bar fuleiro em que encontrei meus amigos para cervejas em uma terça-feira, dei licença para uma das garçonetes, fiquei parado à espera de que ela passasse por um corredor estreito. Foi mágico observar a mudança que aconteceu nela. A antes grosseirona baixou os olhos como envergonhada, agradeceu em tom de voz baixo, sorriu de leve. A partir daquele instante ela desempenhou seu trabalho com muito mais leveza, foi uma perfeita senhorita garçonete, eficiente, agradável. Tenho certeza de que minha boa educação a tocou especialmente. Ela teve consciência de que não é um bicho cabeludo que anda para trás e para frente. Talvez tudo isso, essas minhas impressões a respeito da garçonete, seja fruto de uma convivência prolongada com as palavras do Sr. Henry James. Tenho orgulho de minha boa educação.



Posso parecer um trapo às vezes, com esse meu cabelo revolto e meu apreço por roupas que parecem cobertores, mas sou, certamente, um rapaz muito bem educado.


Tanto que divido com vocês este livro, meu amor por este livro, como quem oferece um belo chá!


A gaivota beijoqueira e os mistérios do Umami

Como resistir a um livro que começa com o seguinte diálogo:

"Miedviediênko: Por que a senhorita anda sempre de preto?

Macha: Estou de luto pela minha vida. Sou infeliz."

Eu nunca dei muita bola para texto de teatro, não por mal, mas por simples falta de hábito e também por uma talvez incapacidade de entender o teatro fora do palco. Pessoas atuando diante de uma platéia sempre me deixam nervoso, é como se eu experimentasse a ansiedade e as inseguranças de cada um em cena, me causa pânico e eu evito.

Eis que meu irmão chega em casa, radiante. Ele não fala nada, apenas me estende o braço e me entrega o livro que acabou de ler. O título, “a Gaivota”, não me é estranho, sei que é do Tchekhov, lembro de já o ter guardado em uma das infinitas estantes da livraria onde trabalhei. Meu irmão e eu temos apreço particular por tudo quanto é bicho de pena, adivinhei a simpatia imediata de meu irmão perante este título, eu mesmo devo ter esboçado um sorrisinho irresistível. “Mas é teatro”, eu digo birrento, como se reclamasse que certa comida tem maionese entre seus abomináveis ingredientes. “É genial”, diz meu irmão.

Nunca imaginei o quanto estava perdendo com esse distanciamento entre mim mesmo e o teatro. Teatro, em texto, é conversa! Parece bobo e ingênuo dizer isso dessa forma, mas para mim foi uma verdadeira revelação. Que prazer inacreditável ser testemunha de conversas deliciosas e ter de penetrar na alma dos personagens apenas decodificando o que eles sentem e o que realmente querem dizer quando abrem a boca.

A dinâmica da narrativa é apaixonante. A sensação é de que é o tipo de história em que nada acontece. É como Rohmer, eu penso. Um nada que traz em si verdades escondidas e fundamentais acerca do universo, da vida, da experiência. Me sinto um quase transgressor, retirando do nada cotidiano preciosidades que me parecem agora impossíveis de abrir mão. Os personagens são riquíssimos, pulsantes, extremamente vivos, ainda que de uma vivacidade apagada e quase de fumaça.

Entre as incontáveis problemáticas pessoais, amores, frustrações, desejos, dou de cara, inadvertidamente, com o personagem escritor. Estar perto não é físico, meu Deus como isso é verdade. Me vem aquela sensação indescritível de quando se acha um pedaço faltante de si mesmo, quando a literatura mostra seu poder devastador e recolhemos por meio de palavras de outro uma parte importantíssima que nos fazia de certa forma mancos. Transcrevo o trecho em que o personagem escritor bem sucedido, Trigórin, fala sobre seus tempos de jovem escritor, e que define com crueza e acerto a forma como me sinto diante do medo e da necessidade de desenvolver esse ofício da escrita:

“E antigamente, nos anos da juventude, nos bons tempos, quando comecei, escrever para mim era um martírio incessante. Um escritor menos, sobretudo quando não tem sorte, parece um desajeitado aos próprios olhos, um desastrado, um inútil, vive com os nervos tensos, esgotados; procura irresistivelmente estar perto de pessoas ligadas à literatura e à arte, sem ser reconhecido, sem ser sequer notado, sempre com medo de encarar os outros nos olhos, como um jogador inveterado que está sem um centavo no bolso para apostar.”

Estar perto não é físico, é verdade Ismael Caneppele.

Depois da leitura de “A gaivota”, fiquei alucinado, precisava de mais. Eu tinha trinta reais para sobreviver até o fim do mês, isso acontece sempre, e me coloquei diante do problema da seguinte forma: comprar mantimentos vulgares ou investir na bela edição vermelha que encontrei de “As três irmãs + contos” em um sebo no qual o atendente e proprietário me desperta certas paixões. É claro que cheguei em casa com o livro vermelho debaixo do braço. Prefiro morrer de fome e falta de cigarro que de tédio.

A peça das três irmãs é deslumbrante, a mesma riqueza, o mesmo nada. Há diálogos absurdamente hilários, o que dá ao enredo modorrento e charmoso um ritmo inesperado, apaixonante!

Esses dias, em casa, à noite, eu e meu irmão discutimos as propriedades e encantos do Umami. Aquele sabor mágico que nossa língua é capaz de identificar, que não é doce, não é salgado, não é azedo, não é amargo. Simplesmente Umami. De acordo com nossas pesquisas, módicas porém eficientes, “umami” vem do japonês e pode ser traduzido como “gostoso”; ele está presente, entre outros alimentos, em cogumelos. Acabamos chegando à conclusão de que Umami é algo que pode ser aplicado não apenas ao paladar, mas também às pessoas, às obras de arte, ao mundo. É como se esse “nada” que o Tchekhov desenvolve tão cheio de talento fosse esse quinto sabor da literatura. No cinema, certamente Rohmer é um mestre umameiro, assim como Nicole Holofcener, uma diretora americana que para mim é o que existe de melhor naquele país em termos de película, uma diretora do mínimo, genial, que acredito ser overlooked pela maior parte das pessoas, inclusive as inteligentes e sensíveis.

O livro vermelho, após a peça de teatro, ainda encerra em suas páginas seis contos maravilhosos. “O beijo”, em particular, me fez vibrarem todas as células que tem alguma capacidade de sentir prazer. É a história de um rapaz solitário de um regimento que sofre verdadeira revolução após uma noite de frufrus, cheiros e vivências primaveris em casa de gente rica. A descrição do sentimento de possibilidades infinitas desencadeadas pelo princípio do amor (mesmo que este princípio tenha fabricação pessoal e/ou imaginária) é perfeita. A sensação de menta no canto da boca. Algo que não posso deixar de reverenciar é o cavalo dançarino logo no início do conto. É lindo!

Me embriaguei de teatro, de Tchekhov, de Umami.

Como me satisfaz esse gosto de nada.











segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O maravilhoso funeral da fantasia

Desde que comecei a raciocinar de verdade, se tem uma coisa que me apavora no mundo e me deixa sem entender nada, é o pragmatismo. Por que escolher viver de uma forma chata se o tempo e o mundo estão aí à disposição para que tudo seja possível? Claro, existem problemas de ordem prática, não estou propondo uma vida cósmica de fantasias pirotécnicas 24h/7, mas independente de chatices, a vida pode ser tão mais, mas tão. Ninguém tem que seguir nenhum modelo de conduta, em todos os campos, seja no vestir, trabalhar, sentir. Somos todos, fundamentalmente, alienígenas saídos do corpo de alguma mulher, o mundo está nos esperando pronto, o mínimo que temos é o direito de decidir ao que aderir (com o que compactuar) ou não na maneira como as coisas estão e são organizadas.




Nos penhascos de mármore, de Ernst Jünger, não apenas é uma preciosidade literária em termos de originalidade e encantamento para com sua construção primorosa de cada mínima frase, é muito mais, é a vida como ela deveria ter o direito de ser.
O livro começa lindamente:

"Todos conheceis a profunda melancolia que nos acerca, ao recordarmos tempos felizes."

O texto pulsa em todas as páginas como uma hipnótica melodia feita de sonho, beleza e horror.
Dois homens vivem no mais deslumbrante penhasco, convivem com serpentes mágicas, participam da vida daquele pequeno lugarejo repleto de vindimas e ventos cheirosos, e claro, observam com cuidado de mãe parideira tudo quanto é tipo de flor e planta. Eles são como botânicos, mas sem a chatice da ciência, eles são verdadeiros descobridores das pequenas maravilhas do mundo, são, basicamente caçadores de tesouros da região.

Os primeiros capítulos são um convite ao mais delicioso exercício imaginativo. Prontamente somos tragados pelas palavras, é asustador sentir exatamente como é viver nos penhascos, a vida simples e maravilhosa de colecionar as belezas da existência. Já no segundo capítulo o parágrafo inicial nos convida para dançar e não soltar nunca mais:

"Na primavera, porém, nós nos embriagávamos até o desatino pois esse é o costume da terra. Cobríamo-nos com batas coloridas cujo tecido esfarrapado luzia como a plumagem dos pássaros, e vestíamos máscaras rijas em forma de bico. Pulávamos feito bufões e mexíamos os braços como se fossem asas, tomando o caminho da vila, em cujo velho mercado se erguia a alta árvore dos doidos. Lá se realizava, à luz das tochas, o corso das mácaras; os homens faziam-se de pássaros e as mulheres fantasiavam-se com luxuosas roupas do século pasado. Elas nos dirigiam gracejos com vozes que soavam como caixinhas de música, e nós lhes respondíamos com um estridente grito de pássaro."
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Em determinada parte da história o cotidiano leve e poético é abalado pelo horror da guerra. E o grande trunfo do livro talvez resida justamente em escapar da chatice da grosseria de ser desagradável e gratuito. Para Jünger o horror existe e é perverso e injusto, tudo isso, mas é descrito com tal refinamento e beleza, de uma forma que só um autor genial tem a capacidade de fazer.

Jünger fez parte do exército nazista, logo afastou-se. A clareza com que ele enxerga e representa o horror é perfeita, digna de uma testemunha da ignomínia máxima ao que o ser humano é capaz de chegar. Talvez o verdadeiro coração do livro seja a passagem que segue a uma terrível imagem de mortandade animal:

"É profundo o ódio que arde no coração do vil ao deparar o belo."

Essa é maior a verdade.


Enquanto Jünger representa o fim de um modo de viver encantador em decorrência da guerra, o diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul, se utiliza de meios menores e inegavelmente sublimes para mostrar a morte do encantamento, da capacidade de fantasiar, das pessoas hoje em dia.

No vencedor da Palma de Ouro, Tio Boonmee que podia ver suas vidas passadas, um moribundo que mora no campo está em casa na companhia de alguns parentes e um enfermeiro, aproveitando o ventinho do começo de noite. Quando a escuridão se sobrepõe à luz, inadvertidamente, chegam para se reunir à mesa a mulher do homem e o filho que havia sumido. A mulher é fantasma e o menino um Macaco-fantasma.


Mitologias particulares,frases sensacionais, cenas deslumbrantes!!! É do que há de melhor, nessa vida!!!

É surreal a competência com que o diretor conduz com naturalidade a trama fantástica. Podem pulular fantasmas, mas o naturalismo charmoso acontece brilhantemente nos diálogos e nas interpretações, não dexiando nunca a coisa descambar para um delírio. Uma das personagens mistura em uma de suas frases as palavras "fantasmas" e "imigrantes ilegais", e faz todo o sentido!

Apesar de ser imaginoso ao extremo o argumento nunca se torna secundário. Tio Boonmee não é um homem, é uma maneira de ver o mundo. A sequência final do filme é inacreditável.

Algo que vale ressaltar é o pensamento do protagonista acerca do momento da morte. É algo que me assombrará para sempre, socorro!



Eu peço, encarecidamente, não sejamos agentes do horror. Não sejamos vis. Não sejamos pragmáticos.


Não tem porquê.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Au Au

Muito de vez em quando uso espaço no blog para falar especialmente de um filme, mesmo que o cinema ocupe grande espaço no meu coração e que muitos filmes façam parte de quem eu sou e do que eu acredito, como pernas ou braços invisíveis que me ajudam a ficar de pé. Acredito que seja uma espécie de egoísmo, eu odeio dividir filmes que eu amo.


Ao falar de um livro eu não sinto que ele possa ser roubado de mim, (ou até mesmo que corra o risco de ser difamado), porque ler é algo que demanda disposição, se alguém se interessa por um livro sobre o qual eu tenha falado e de fato o lê é algo que me deixa feliz, pois sei do poder de engrandecimento dessa leitura, acredito que seja quase uma contribuição para a melhora da humanidade. Se alguém não gostar é perda sua, o livro não sofre.


Assistir a um filme, por outro lado, demanda apenas poucas horas, o que significa que mais pessoas o façam, e por consequência, o cinema se torna tão mais fácil de ser mal interpretado, e tem tão mais comentaristas e críticos idiotas. Como falam merda sobre os filmes, como são pedantes e burros os que se acham entendidos. Enfim, não gosto de falar sobre meus filmes, mas às vezes fico tão comovido que não me controlo. I can't help myself!




Sempre acompanhamos o Festival de Cannes, também com esse nome não poderia ser de outra forma, e nossa vida cinematográfica é muito regida em função do que é exibido no Festival (na mostra principal e nas mostras paralelas, Un certain Regard, quinzena de realizadores). Também gostamos dos outros festivais, mas como Cannes não há!


Meu irmão que sabe muito mais de cinema do que eu (em termos de informação, na sensibilidade somos bastante equivalentes) apareceu ontem em casa com um dvd gravado, riscado de canetinha "Kynodontas", película que descreveu como:

"O filme grego que ganhou Certain Regard, da família bizarra, meio Jardim de Cimento".


Dente Canino, primeiro filme de seu diretor Yorgos Lanthimos, é uma das melhores coisas que já vi. É inacreditável descobrir uma outra voz tão única, original e competente no cinema. Tenho um grupo de diretores favoritos (Rohmer, Kiarostami, Kaurismaki, Honoré, os Dardenne, Hirokazu Koreeda, Miyazaki, Hanneke, ... , que amo como amo os autores, meus amigos) e fazia tempo tinha quase certeza de que demoraria muito e era até improvável que alguém de fora passasse a integrá-lo. É genial conhecer o trabalho de alguém assim, que não mistura referências, mesmo que referências boas; alguém que faça seu próprio cinema.






O filme tem uma ressonância Flanneryiana, uma perfeição no contar a história, uma consciência particular do dever de apresentar uma narrativa, com ações, conflitos, e não uma orgia de questionamentos flutuantes.

Um pai e uma mãe que resolvem criar seus filhos em um universo particular, isolado. Inventam significados novos para palavras, ensinam e praticam gestuário canino (latem, se lambem), divertem-se através de um entretenimento bizarro e cômico (vovô Sinatra, aviões), a natureza é pervertida, os conceitos morais todos existem de outra forma.



Pouco mais de uma hora e meia de acesso a um mundo novo no qual experimentamos uma nova realidade. Não acho que seja sadismo, nem uma resposta aos que culpam a cultura de massa e o culto a violência pelo mau comportamento das pessoas, para mim o filme trata das possibilidades elásticas do desenvolvimento de nossa humanidade.


Como alguém faz isso? Mas faz, e faz todo o sentido. Não parece, mas é gente!


Uma loucura construída com tanto realismo e simplicidade que se torna inegável seu reconhecimento e sua validação como possibilidade, como mundo novo.

E tem cena de dancinha!!!!


Não me permito discorrer sobre detalhes da história pois estragaria a experiência!


As cenas são um escândalo, a violência tenebrosa, mas eu juro, é um encanto.







Parece até um conto da Flannery.