domingo, 26 de abril de 2009

O "Ensaio"

Não sei o porquê, mas acho tão bonita a palavra "ensaio" empregada como gênero literário. O ensaio pode parecer um pouco pretencioso ou pedante, e muitas vezes os ensaios são assim mesmo, mas às vezes quando estou cercado pela burrice alheia, o que acontece bastante no meu trabalho, pego algum livro de ensaios e fujo do trabalho para reafirmar para mim mesmo que existe vida inteligente no mundo. O que eu gosto nos ensaios é que eles são como uma forma de "conversa" com o autor. Claro que o autor tenta se apresentar na sua forma mais inteligente e às vezes até meio inacessível, mas quando o assunto falado é do nosso interesse, um bom ensaio pode ser delightfull.

Conheci a Susan Sontag da mesma maneira como conhecemos amigos novos. Passei a me interessar pelo que ela escrevia quando soube que ela era melhor amiga de uma pessoa de quem gosto muito. Essa pessoa de quem gosto muito não é assim super próxima como talvez minhas palavras possam ter dado a entender, na verdade é uma outra autora que eu adoro, Nadine Gordimer, escritora/ativista da África do Sul que odeia qualquer tipo de categorização entre os seres humanos.



A Susan Sontag, que era uma new yorker de nascença, foi autora de ficção, dramaturga, mas o que mais acho dela são ensaios. Uma coisa que não sabia era que ela era casada com a fotógrafa Annie Leibovitz. Tem duas coisas que li dela que gostei muito. A primeira delas é um ensaio que está no livro "Where the stress falls" que em português se chama "Questão de ênfase". O nome do ensaio é DQ. Ele fala sobre o efeito da literatura em dois personagens clássicos: Dom Quixote e Madame Bovary. Para ela, ambos os livros falam da tragédia da literatura, mas de duas formas distintas. A Emma Bovary tem a imaginação corrompida pelos livros de histórias vulgares que lê e que lhe servem como forma de compensação romântica, e o Dom quixote tem a imaginação não corrompida, porém sequestrada pela quantidade absurda de livros que lê. Cervantes descreve ele lendo desde o acordar até o adormecer, e lá pelas tantas para o personagem a única realidade que ele pode aceitar é a dos livros, é a que está em sua cabeça, a realidade do que ele vê fica em segundo lugar.
Achei essas constatações dela muito interessantes, mas o que realmente amei foi a forma como ela descreve o papel do escritor em um mundo onde há a literatura.

"Um escritor é antes de tudo um leitor- um leitor tomado por uma loucura furiosa; um leitor trapaceiro; um leitor impertinente que se proclama capaz de fazer aquilo melhor."



Uma última coisa sobre ela. Escrevi algumas linhas atrás que o ensaio é uma conversa com o autor só que em sua forma mais "intelectualizada", digamos. Acho que quando escreve ficção, o autor se permite mostrar as suas fragilidades. Esse trecho do conto "Assim vivemos agora" (Que é a segunda coisa dela que eu amei) me parece revelar bastante de uma parte pequena mas bem verdadeira da intimidade da autora:

"E, afinal eles já foram muito íntimos, tanto que Lewis continua tendo as chaves do apartamento dele, você sabe, aquela coisa de deixar as chaves com o outro mesmo depois do rompimento, um pouco de você espera vagamente que a pessoa passe por lá de surpresa, tarde da noite, bêbada ou meio alta, mas principalmente porque é seguro ter algumas chaves rolando pela cidade(...)"

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Voltando ao ensaio, gosto bastante de ler sobre o efeito do ato de ler. Por sorte, logo depois peguei um livro de ensaios de alguém que para mim parece ser o detentor de uma grande porcentagem da verdade do mundo, Milan kundera. Em seu livro de ensaios "A Cortina" ele discorre pelas páginas falando de seus livros favoritos, seus autores, tem um ensaio dedicado quase que inteiramente sobre o tipo de narração maluca do Tolstói quando ele descreve a confusão que se passa na cabeca de Anna Kariênina quando ela está na cidade um pouco antes da incrível cena da morte dela. Amo absolutamente a Anna, e essa cena que o Milan Kundera comenta tem uma parte genial, que mostra bem como nossa visão de mundo se altera quando estamos meio doidos: a Anna está numa carruagem, maluca, ciumenta, se sentindo abandonada, olhando pela janela, e vê uma mendiga segurando um bebê. Ela pensa:

"Ela pretende despertar piedade? Não fomos nós atirados nessa terra apenas para detestar e atormentar uns aos outros?"

Anna Kariênina é com certeza um dos livros da minha vida, mas entendo que talvez não seja assim com os outros. Nesse mesmo livro, Kundera fala sobre o comportamento do leitor:

"Cada leitor é,quando lê, o leitor de si mesmo. A obra do escritor não é senão uma espécie e instrumento óptico,que ele oferece ao leitor a fim de lhe permitir discernir aquilo que, sem o livro, talvez ele não pudesse ver sozinho."

Nossa, sensacioal! Viva o Milan Kundera!!!


(Milan Kundera, a Naíla queria sentar nessa mesa!)

2 comentários:

  1. Quero ler algo dessa new yorker! O melhor dela! Adorei as citações... muito sensível.

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  2. Prefiro o colo.
    Tô relendo o "Insustentável"...pressinto que a tua vez está chegando.

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