quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Doce de Pelotas


Eu nunca fui muito movido pela poesia. Acho que mais por preguiça do que por constituição genética. Há um tempinho saiu o livro "Trabalhar Cansa" do Cesare Pavese, que é um livro de poesia que quando foi lançado foi encarado de forma bem maligna pelo povo da cultura da época. Eu li alguns poucos trechos e gostei bastante. Descobri depois que o lançamento era uma parceria da Cosac Naify com a 7 Letras e que outros títulos iriam ser lançados. Eu tenho uma implicância tremenda com gente jovem que escreve, ainda mais se essa gente jovem for gaúcha. Eis que achei uma verdadeira delicinha um livrinho lançado desse projeto das editoras, chama Rilke Shake e é de uma autora gaúcha e que ainda por cima faz aniversário três dias depois de mim.

Ela, Angélica Freitas, escreve tão despretensiosa, bem o oposto do que eu imaginei quando li o título. Eu adorei, achei muito divertido, adorei as referências, achei as palavras em língua estrangeira escritas de forma natural e não de forma maquinada como fórmula de conteúdo ausente. Vou transcrever um dos textinhos (digo textinhos porque o livro é pequenino, as páginas, os textos propriamente ditos, são todos diminutos... uma graça!).

"Entro na livraria do bobo.
não tenho dinheiro
e tampouco tenho talento para o crime.

desfilam ante meus olhos
títulos maravilhosos
moribundos de tanto estar
nas prateleiras.

roube-nos, dizem eles.
não aguentamos mais ficar aqui
na livraria do bobo.

quem acreditaria
nesta versão dos fatos?
ajudem-me, maragatos
nesta hora afanérrima
de uma libertadora paupérrima
de livros.

retumba meu coração. retumba
mais que a bateria do salgueiro.
treme o corpo por inteiro
e as mãos já suam em bicas.

ganho a rua, as mãos vazias
e os livros gritam: maricas."

Não é ótimo?! Li o livro todinho, dá pra sentir que ela tem amor pelo livro como instituição, como entidade. Das balas soft à Gertrude Stein e sua bundona, acho que foi um belo agradinho para um dia feio como hoje.

Eu entendo e partilho do sentimento dela em "Rilke Shake" (texto que dá título ao conjunto). Entendo direitinho, só que no meu caso o sabor não é Rilke, e a mistura não se faz com sorvete.

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