quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Irmãos

As relações fraternas me fascinam. Também não podia ser diferente, tenho um irmão gêmeo, uma irmã melhor amiga, uma irmã resolvedora de problemas, um meio-irmão golpista e um outro meio-irmão bebê morto! Meu universo é riquíssimo em experiências com os meus irmãos e me considero felicíssimo pelos três irmãos que tenho. Essa vivência torna os livros que tratam de tais relações bastante caros ao meu coração e ao meu senso crítico. Li sem premeditação dois livros que tem a dinâmica fraternal como centro de suas tramas.

O primeiro foi Dois Irmãos, Miltom Hatoum, e o segundo O Jardim de Cimento, Ian McEwan. As duas narrativas se mostraram muito familiares ao meu coração, Hatoum fala sobre a relação dos irmãos gêmeos e McEwan sobre o microcosmos vivido por quatro irmãos, dois meninos e duas meninas!




Eu li com grande prazer Dois Irmãos, achei a construção narrativa muito boa, os cenários, as cores, tudo bastante interessante, eu tenho uma quedinha bem grande pelo étnico. Porém os irmãos gêmeos propriamente não me despertaram grande admiração. O antagonismo é deveras literal, Omar é um escroto, conquistador, bêbado, mimado, burro, e Yaqub é um silencioso, trabalhador, honesto, bem sucedido, esforçado. Acho que a riqueza do livro se dá longe dos proveaveis protagonistas. A irmã Rânia com suas vontades incestuosas, a mãe Zana e sua preferência pela cria que nasceu fragilizada e a Índia Domingas (nome delicioso) são todos muito ricos, complexos e humanos. Os dois irmãos de fato são carentes de verdade, de alma.


O Jardim de Cimento me deixou assombrado. Fiquei chocado com o talento do escritor. Foi o primeiro romance de McEwan (amo primeiros livros) e é escrito de forma não menos que genial. Existem cenas absurdamente reais, as brigas, a crueldade que um irmão se permite em empregar com o outro, as bizarrices de cada um que entre irmãos não precisam de máscaras, é tudo muito palpável.

A maneira como ele escreve em primeira pessoa, me faz realmente acreditar naquele menino de quatorze anos. E todos os personagens tem a maturidade e a profundidade emocional condizente com a sua idade. É sensacional.
Claro, meu amor pelo livro deve-se também por ser ele altamente macabro, estranho, sexual, e muito, muito honesto. Por mais bizarras que sejam as cenas (e tem cenas bizarríssimas) elas acontecem tão naturalmente que se tornam perturbadoramente reais.

(Ian McEwan...seu pervertido!)

Eu adoro os amores e vontades "erradas". Acho incesto, incesto de verdade, irmãos amantes, inegavelmente fascinante!

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