quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Meu Amante Amado

Esse mês que passou começou chuvoso e horroroso e gelado. No primeiro dia de trégua, quando fez calorão e solaço eu tive uma folga do trabalho. Eu ia ir no cinema mas quando senti a quentura na rua tive que ir para a redenção, e quem melhor de se levar para deitar e rolar na grama do que o nosso amante? Tivemos várias tardes gloriosas, eu e Jorge Amado.

Comprei em uma livraria bem pequena da Oswaldo por 13 reais apenas, Jubiabá. Fiquei sabendo da existência desse livro quando estava pesquisando sobre o Jorge Amado e li que foi este livro que ele mostrou para o Albert Camus e que fez ele começar a ser um autor reconhecido no exterior.

Eu acho que escrevi aqui sobre minha fome de brasilidade, e o que é mais brasileiro do que Macumba, Maria Bethânia, o Mar, uma sereia na placa de um bar?! Senti um prazer fortíssimo em mergulhar nas cores e feitiços da Bahia. Nunca tive tanta vontade de ser outra coisa como a de ser baiano.

Jubiabá conta a vida de Antônio Balduíno, um negro pobre boxeador bonito galante e amigo do maior pai-de-santo da Bahia, o personagem título do romance. O livro é fascinante, existem passagens deliciosas, a infância toda do personagem é de uma magia inexplicável, Tia que enlouquece, Lobisomem, Zé Camarão, macumba, Oxalá, Jubiabá! O romance é bem cheio de histórias, e não é feito apenas de flores e charme, existem coisas bastante desagradáveis no caminho de Antônio Balduíno, o negro Baldo.

A construção da história é genial. O Baldo desde criancinha amava os ABC's sobre Jagunços, bandidos sanguinários, homens machos. Ele passa a vida toda buscando viver uma vida digna de um ABC. Sabe que eu demorei um tempão para me dar conta de que ao ler Jubiabá eu estava era o tempo todo lendo o ABC de Antônio Balduíno?! O Jorge Amado tem uns elementos poéticos e mágicos sensacionais. Tem um trecho quendo o Balduíno tem seus vinte e alguns anos e ele vai viajar com Mestre Manuel e sua esposa no barco deles, chamado o Viajante sem Porto. No meio da viagem, eles encontram outro barco, guiado pelo personagem principal do romance Mar Morto e eles apostam uma corrida. Eles começam a corrida e o barco onde Baldo está corre em velocidade bem menor. O barco tem cheiro de abacaxis e dona Maria Clara, a mulher de Mestre Manuel, põe-se então a cantar. Assim que ela começa a cantar as velas do barco se inflam e o barco voa sobre as águas. O mar gosta do canto dela. É muito lindo!!!

Entre as tantas aventuras existe a fase do Circo que tem uma passagem ma-ra-vi-lho-sa! É um diálogo entre Giusepe e Fifi, dono do circo e trapezista, respectivamente. O circo vai mal de dinheiro e Fifi reclama que quer dinheiro e Giusepe que fora trapezista em seus tempos de jovem fala sobre a arte do circo e o papel do artista:

"Giusepe quando ficava bom dos porres tornava-se ativo e resoluto. Parecia que ia salvar tudo, resolver a situação difícil do circo, pagar o salário dos artistas.
E quando um artista reclamava:
-Também você só sabe pedir dinheiro... E a arte, não vale nada? No meu tempo a gente trabalhava pela arte, pelos aplausos, pelas flores. Flores, está ouvindo? Flores...
Naquele tempo se pensava na arte. Um trapezista era um trapezista.

Virava-se para Fifi:
-Uma trapezista era uma trapezista...
A trapezista ficava com raiva. Ele continuava:
-Hoje o que é que se vê? Uma trapezista como você, que até dá para a coisa, só fala em dinheiro, como se as palmas não valessem nada.
-Eu não como palmas...
-Mas é a glória...Nem só de pão vive o homem...Foi Cristo quem disse.
Fifi olha muito séria para Giusepe:
-Cristo não era trapezista..."


Mais para o final do livro a história ganha um caráter político que teve indícios nos capitúlos iniciais. A parte que fala sobre a greve realmente me tocou. É mais um retrato do quão monstruosas e horríveis as pessoas são. Aliás, a bestialidade do ser humano é mostrada recorrentemente ao longo do texto, se não fosse o charme das palavras e a alternância de temas o livro teria um peso doído demais.

Bem no final tem uma última passagem que acho linda demais:

"A noite desceu e a lua sobe do mar junto das estrelas. (...) Os saveiros dormem. Apenas o Viajante sem Porto sai de lanterna acesa, carregado de abacaxis. Maria Clara vai em pé cantando. Dela vem um poderoso cheiro de mar. Ela nasceu no mar, o mar é seu inimigo e o seu amante. Altônio Balduíno também ama o mar. Sempre viu nele o caminho de casa. Ele olha o mar verde. amarelado pela lua. De muito longe vem a voz de Maria Clara.

'A estrada do mar é larga, Maria...' "


(Esta foto é do meu livro! Lindo e amado!)

Foi uma experiência incrível, Sol, Jorge Amado, Música brasileira no Ocidente às quintas-feiras e Maria Bethânia cantando Reconvexo sem parar no meu mp3.

Terminei o livro ontem de noite. Logo depois de fechar o livro, abraçar ele forte e me despedir dos personagens as coisas à minha volta mudaram. O calor se foi e a chuva veio.

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