Nunca tinha lido nada da Clarice Lispector, e acho que li no momento certo. Quando ela diz que este é um livro que ela ficaria contente se só fosse lido por pessoas de alma formada, ela está dando um aviso seríssimo! Quem ainda não passou pela loucura que é se perceber existindo, as nossas pluralidades infinitas, as vivências onipresentes, quem não tem uma consciência de que se é muito mais do que se vive, realmente vai ter muitos problemas ao tentar ler G.H. Creio que seja impossível alguém entender o livro se ainda tem a alma em fase de formação.
A genialidade do livro é inegável, participamos, invadimos o momento absolutamente íntimo em que uma pessoa se dá conta da vida, em que uma pessoa se depara com o seu existir. Achei sensacional a descrição de todas as etapas pela qual a personagem passa neste penoso e muito assustador processo. Realmente fico abismado, eu acho que ela conseguiu mesmo inventar uma personagem e fazer essa personagem se tornar tão viva quanto ela mesma, quanto eu mesmo!
Eu me identifiquei com muitas coisas, e minha interpretação pode parecer estranha ou errada, mas muitas das frases escritas são muito parecidas com coisas que vivi e vivo.

Logo no início ela diz coisas que me invadiram a alma, senti que estava lendo quase que minhas próprias lembranças...
"Ir para o sono se parece tanto com o modo como agora tenho de ir para minha liberdade. Entregar-me ao que não entendo será pôr-me à beira do nada. Será ir apenas indo, e como uma cega perdida num campo. Essa coisa sobrenatural que é viver."
"Enquanto escrever e falar, vou ter que fingir que alguém está segurando miha mão."
"Não estou à altura de imaginar uma pessoa inteira porque não sou uma pessoa inteira."
Acho isso incrível. Antes de me tornar uma pessoa inteira, o que acho eu aconteceu bastante cedo, eu tive que me lidar com o fato de não ser pessoa inteira!
A evolução da G.H ao longo do texto é muito pessoal, às vezes ela se torna tão pessoal que chega a ser hermética. Em determinados momentos é como se não pudéssemos enxergar claramente o que se passa com ela, apenas espiamos e tentamos entender. O desenho na parede, a barata, o minarete! Como foi bom imergir nesse mundo. É uma experiência necessária na vida dos seres pensantes. Clarice é muito corajosa e talentosa. Além de ter o "descobrimento de existir" como fio condutor de sua narrativa, ela ainda constrói elementos
para capturar o leitor e criar uma atmosfera grandiosa e ao mesmo tempo minúscula. Maravilhoso.
Espero que o Meario não me mate, sublinhei algumas partes do livro. Partes que queria gravar, que precisava gravar. Mas sublinhei de lápis! Aliás, este livro é a cara do Mário. Isso pode soar estranho para quem o conhece superficialmente, mas é muito verdade. Só alguém que sabe o significado da vida, só alguém que sublinha no livro como ele sublinhou: "Quando se realiza o viver, pergunta-se: mas era só isto? E a resposta é: não é só isto, é exatamente isto." só alguém assim é capaz de viver tão livremente como a Marilce. É um viver livre, e leve porque tem que ser leve. E leveza não é falta de profundidade, leveza é consciência de que viver é incrível, de que o divino para mim é o real!
Estou quase terminando, vou transcrever um trecho lindo, sou apaixonado pelas palavras:
"O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão."
Estou muito feliz. Foi providencial essa leitura de G.H. Eu precisava me libertar um pouco da vida que construo diariamente e me lembrar de que viver é muito mais do que essa organização. Viver é ser coisas! Realmente depois da leitura dá vontade de sair e falar na janela....
E então adoro. - - - - - -


seguro a tua mão e te conto um segredo.
ResponderExcluirJamais ficaria bravo com suas marcações no livro. é uma honra. ja te disse. isso..
e foi uma honra te emprestar algo tao intimo como este livro. Coisa de melhores amigos.
que venham muitas noites kibutis e gente feia para gongarmos e acabarmos a noite citando clarice. E entao eu adoro.
desde que falaste que estavas lendo a g.h fiquei louca para voltar ao livro, só para podermos ficar uma noite inteira só falando dela. clarice sabe matar a pau como ninguém. *suspiros*
ResponderExcluirbeijos, querido!
welter