Um tempo atrás, eu e meu irmão nos embebedamos na Olaria naquele bar onde o chope é muito barato das 18 às 21. Fomos no Guion e ficamos olhando os livros daquela mini livraria. Em um momento de apaixonamento místico encontrei a Doris Lessing. A contracapa amarela e a foto do casal girando me deixaram encantado. Nos agradecimentos iniciais ela começa dizendo: "Com respeitosos salamaleques...", a citação de abertura do Yeats é sensacional, e foi o que me deixou obcecado pelo livro:
Memória
Uma tinha beleza
E duas ou três tinham charme,
Mas charme e beleza eram nada
Porque a erva da montanha
Não mantém a sua forma
Onde a lebre esteve deitada.
Não mantém a sua forma
Onde a lebre esteve deitada.
Amor, de novo conta a história de uma mulher de sessenta e cinco anos, Sarah Durham (um nome sensato para uma mulher sensata) diretora e co-fundadora de uma companhia teatral, que em meio a produção de um espetáculo sobre a vida de Julie Vairon (uma mulher incrível, escritora, compositora, apaixonada, meio bruxa da Martinica) se permite amar de novo. O livro não é nem um pouco fantasioso ao falar sobre Sarah e o amor, e por isso mesmo é tão maravilhoso. A capacidade da autora de revelar universos interiores gigantescos, complexos e completamente diversos, dando a impressão de invasão da vida dos personagens,só me é comparável ao Enrique Vila-Matas nos Suicídios Exemplares. Eu tenho mania de riscar nos meus livros (mania da qual não abro mão, faz parte da leitura) e esse em particular foi riscalhado furiosamente. Logo no início Sarah lê algumas frases de um romance e se pergunta de forma quase solipsista: Mas existe algo mais estranho do que o modo como os livros que refletem nossa condição ou estágio da vida acabam se insinuando em nossas mãos?

Pode parecer estranho, mas eu me identifiquei muitíssimo com essa mulher convicta no desamor, e pude me colocar em seu lugar e sentir todo o desequilibrio e caos que uma ressurreição do coração pode causar.
Sarah tem um grupo de amigos genial, o veado do grupo é irresistível um menino meio pássaro, cabelos negros macios como plumas.... Era brilhante, um mágico: podia criar um luar, um lago, uma montanha, com luzes e papel prateado e sombras.
Um dos patrocinadores, Stephen, vira seu amigo e nele encontramos a loucura de se amar um personagem, um fantasma. O personagem dele aliás é uma maravilha, aristocrata, mecenas, mulher lésbica, um milhão de tormentos.
Bill, o homem contratado pela companhia para interpretar um dos amores mal fadados de Julie Vairon, é o causador da paixão em Sarah. Homem jovem lindíssimo, gostoso, consciente de sua beleza, lembra a Sarah dela mesma quando jovem. O livro fala bastante sobre o amor e a atração, no quanto continuamos apreciando o bonito de verdade independente da idade, fala do desejo quando se é velho (velha). Não é à toa que ela faz um agradecimento especial à incomparável Colette , em Chéri.

As descrições são muito francas, e ela encontra soluções para a vulgaridade com humor, como por exemplo quando fala sobre excitação.
Queimar, a palavra que usamos, abreviação daqueles sintomas físicos vergonhosos, agônicos. Bem poética, de fato, a palavra queimar.
Existem frases surreais, charmosíssimas, e é genial quando Sarah compartilha suas epifanias particulares e lembranças de criança. Amo quando ela fala de fazer 50 anos, e da leveza que isso confere ao tempo do mundo, como todos os acontecimentos que parecem longínquos por terem acontecidos há seculos de repente tornam-se próximos, afinal um século é apenas duas vezes a sua idade. É ótimo também quando ela relembra a primeira desilusão amorosa quando tinha seis anos , e descreve sua rival: Mary Templeton era a mais glamurosa das meninas, porque ia toda a semana à escola de balé e tinha nove anos de idade.
É um sonho!!!!!!!!!!
Escrevi um monte porque não consegui me controlar. Me deixei seduzir, como diz a Sarah quando ela escreve.
Continuo sem amar, satisfeito, e fico apavorado só de pensar. Me ajudem Delphine (Rohmer), Iris(Kaurismaki) e Sarah (Lessing), minhas heroínas românticas, quando talvez eu diga as duas frases soltas em uma página em branco antes de o romance começar:
Estou amando outra vez,
Coisa que nunca quis...
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