segunda-feira, 21 de junho de 2010

Bumbumizado

A vontade de ler Gombrowicz veio da história que o Vila-Matas conta no Bartleby e Cia, sobre Clément Cadou, que com quinze anos (era jovem aspirante a escritor) conheceu Gombrowicz em um jantar na casa de seus pais e sentiu-se durante aqueles instantes como uma parte da mobília, e desde então e até o final da sua vida passou seu tempo faznedo pinturas de móveis, intitulado-as de auto-retrato. História maravilhosa e esquisitíssima.





Não foi uma easy ride a minha leitura de Ferdydurke. A premissa do livro é incrível, um escritor de trinta anos que é sequestrado por um professor de filosofia e volta a ser adolescente. O narrador é louco, a história muitas vezes parece não fazer o menor sentido. Demorei para peceber o quão idiota eu estava sendo, não respeitando a liberdade do Gombrowicz em escrever como ele bem entendesse e sobre o que ele bem entendesse (a verdade é que me senti ofendido, incomodado pelo prefácio de "Filidor Forrado de Criança"). Acabei me encantando com a bizarrice generalizada e o livro acabou se provando importantíssimo para mim, vou lembrar com a maior saudade o festival de bumbuns, fuças, Mietus e sua loucura pelo lacaiozinho, a colegial moderna, Pimko, o moderno Kopydra. Sempre fui muito admirador de pessoas que reinventam uma linguagem, e acho que essa reinvenção nem se dá de forma proposital, tem pessoas que reinventam os meios e códigos por ser simplesmente a maneira como elas conseguem se comunicar.


O livro é um universo completamente novo, é absurdo, inacreditável ter a capacidade de fazer isso acontecer. Acho que entre outras pessoas que conseguem criar uma nova realidade (em todos os sentidos) e cheios de liberdade, posso citar o Aki Kaurismaki e as CocoRosie. A diferença entre eles e Gombrowicz é que o ineditismo com que eles fazem a sua arte me apaixona enloquecidamente, já o de Gombrowicz me causa mais admiração incondicional e eterna do que amor desenfreado.





Sensacional ser lembrado do quão plural e infinita é a literatura! Agradeço ao Gombrowicz por ele me lembrar de que não existe o impossível. Tudo é permitido. Essa que é a maravilha da literatura.

Ps: acabei de descobrir que existe um filme de Ferdydurke! Chocado. Não consigo imaginar Józio feito de outro material que não papel e tinta.

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