Um milhão de coisas se passaram pela minha cabeça nos últimos tempos, acreditar em um controle no fluxo de tendências de bondade idiossincráticas e a isso chamar de Deus, reavaliar todos os pesos, valores e funções das experimentações sensoriais (embate entre imaginação e mundo real), construir conceitos que me ajudem e me façam entender-me com o mundo, reconciliar-me com a imperfectabilidade do mundo, tentar chocar os ovos do mistério (e para quê?); e ela sempre ao meu lado.

Escrevi 17 contos para participar de um concurso literário (devo dizer que foi realmente maravilhoso escrever, independente do resultado, o ato de rabiscar as palavras me toma de maneiras indescritíveis, saio de mim, melhor que qualquer droga). Foi fundamental para me ajudar a entender a complexidade de construção de um pequeno universo essa leitura dos contos da Flannery. Ela tem uma liberdade na escrita, uma voz tão própria, é impossível não sentir-se inspirado.

Um dia quero ser tão bom quanto ela. Talvez eu consiga, tomara. A história da vida dela é sensacional, os pássaros, sua galinha amestrada, suas amizades epistolares, o Sul. Confesso que fiquei chocado ao ler alguns ensaios sobre a obra dela e ver o quanto as pessoas se preocupam em caracterizá-la como católica proselitista e até racista. É de uma idiotice tão grande querer taxá-la dessas e de quaisquer outras maneiras, fico irritadíssimo. Ela é genial, é isso que ela é. O realismo, o realismo, bla bla bla. Ela é a Flannery, maluca, bizarra, mestra da simplicidade, todas as histórias apaixonantes, construções de imagem, de linguagem, pluralidade de identidades, é uma coisa maravilhosa.

O mundo vale a pena porque pessoas como a Flannery são possíveis, apesar do horror generalizado, da mediocridade, da baixeza, da estupidez, existe esperança, eu, ao menos, desenvolvi certa fé. Outro ponto que não posso esquecer de citar, o conto "A Colheita", no qual a autora fala sobre uma personagem escritora (alguns outros personagens também são escritores, mas essa acho especial), como é fascinante ter acesso ao processo criativo dela, divino, miraculoso!
Me identifico muito com o menino que fala nesse vídeo, sorri até minha cara doer ao vê-lo falando sobre ela, seus dentes tortos, sua cara angulosa. Ele diz não saber o que de inteligente pode falar sobre ela, sinto-me em posição igual, mas nem acho necessário.
Eu te amo Flannery, e eu amo esse menino, queria tanto casar com ele.
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