quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Um homem mal assombrado

Existem autores que me atraem de forma mística, antiga. Desde que me meti a chafurdar pelos livros e comecei a descobrir milhões de partes ocas e encantadoras escondidas dentro de mim, o Henry James sempre permaneceu feito fantasma, me olhando de canto (soslaio, para lhe fazer um agrado). Só li dois livros dele até agora (A volta do Parafuso, Os espólios de Poynton), e fica uma aura de dever não-cumprido, não sei se me faço entender. Eu sabia que precisava ler ele, lia, achava encantador, mas faltava algo. Eu tinha fome era dele, do homem, mais que da obra. Descobri finalmente!
Colm Tóibin, um irlandês feio que tem o nariz igualzinho ao meu, escreveu um romance que há muito jazia na minha estante sem que eu lhe desse o devido valor. O Mestre acompanha a vida do autor de 1895 a 1899, mas através de lembranças reconstruídas lindamente a sensação que me fica é a de que conheço Henry da vida inteira, do avesso, mais do que ele mesmo.
É encantador ver o amor com o qual o Tóibín escreveu o livro. Certamente ele deve ter sido atingido pelas angústias, mecanismos, chatices, vontades, todas muito particulares de Mr. James, talvez comuns a todos os escritores, especialmente veados e dividios entre a misantropia e o fascínio pelos cacoetes e maravilhas do comportamento humano (um clube pra lá de divertido, do qual devo dizer orgulhosamente me considerar membro, mesmo que espiritual, por enquanto.)


Três triunfos dessa maravilha de livro:


1. A batalha entre o viver e o escrever, um embate injusto e horrorso, sem o qual não se vive, ou pelo qual não se vive: uma confusão dos diabos! Me questiono muito a esse respeito. Tem dias que quero me liquefazer em tinta, outros que quero conversar com coqueiros na minha criação de galinhas tropicais. É sensacional acompanhar o subconsciente do personagem, Colm Tóibín é feiticeiro poderoso. É como se estivéssemos na nuca, ouvido colado. Henry James revelado como pelos irmãos Dardenne.


2.Minny Temple, a melhor personagem coadjovante do mundo! A fome de viver em oposição à clausura, as flroes e o vento, a faceirice, o medo de morrer por morrer significar não viver a lindeza da vida, e não medo de morrer porque sim, porque teoricamente devemos viver, o que é a coisa mais estúpida que existe. Chorei tanto, achei tão magnífico, Henry alquimista, transgressor da vida e da morte. Trazer Minny de volta através do Retrato de uma senhora!! Eu ñunca tinha imaginado mais esse poder da literatura. Deus é feito de letras e papel, tenho certeza disso.

3. Flerte furiosíssimo entre o senhor embaixador da pudicícia Henry James e alguns homens que passaram por sua vida. Troca de olhares e gentilezas com o empregado do castelo irlandês, segure a respiração, oh meu deus do céu! O escultor em roma, tirano da beleza, dorian gray deixando desendentes. A deslumbrante cena do banho, a tensão sexual entre James e Holmes que fazem as páginas do livro ferverem, exalarem calor, só quem é veado e sabe que nessa vida de veado nos é negado a construção da relação amorosa, ou seja, caímos despreparados e velhos, rubicundos como tomates homossexuais natalinos: ver, de verdade, um homem pelado!


Deus abençoe Colm Tóibín, Deus abençoe Henry James, Deus me abençoe.



Ps: pedi de presente de natal "os embaixadores", vai ser meu primeiro livro dele depois de conhecê-lo tão profundamente. Papai-noel, não seja filho da puta, quero meu presente!

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