
Colm Tóibin, um irlandês feio que tem o nariz igualzinho ao meu, escreveu um romance que há muito jazia na minha estante sem que eu lhe desse o devido valor. O Mestre acompanha a vida do autor de 1895 a 1899, mas através de lembranças reconstruídas lindamente a sensação que me fica é a de que conheço Henry da vida inteira, do avesso, mais do que ele mesmo.
É encantador ver o amor com o qual o Tóibín escreveu o livro. Certamente ele deve ter sido atingido pelas angústias, mecanismos, chatices, vontades, todas muito particulares de Mr. James, talvez comuns a todos os escritores, especialmente veados e dividios entre a misantropia e o fascínio pelos cacoetes e maravilhas do comportamento humano (um clube pra lá de divertido, do qual devo dizer orgulhosamente me considerar membro, mesmo que espiritual, por enquanto.)

Três triunfos dessa maravilha de livro:
1. A batalha entre o viver e o escrever, um embate injusto e horrorso, sem o qual não se vive, ou pelo qual não se vive: uma confusão dos diabos! Me questiono muito a esse respeito. Tem dias que quero me liquefazer em tinta, outros que quero conversar com coqueiros na minha criação de galinhas tropicais. É sensacional acompanhar o subconsciente do personagem, Colm Tóibín é feiticeiro poderoso. É como se estivéssemos na nuca, ouvido colado. Henry James revelado como pelos irmãos Dardenne.
2.Minny Temple, a melhor personagem coadjovante do mundo! A fome de viver em oposição à clausura, as flroes e o vento, a faceirice, o medo de morrer por morrer significar não viver a lindeza da vida, e não medo de morrer porque sim, porque teoricamente devemos viver, o que é a coisa mais estúpida que existe. Chorei tanto, achei tão magnífico, Henry alquimista, transgressor da vida e da morte. Trazer Minny de volta através do Retrato de uma senhora!! Eu ñunca tinha imaginado mais esse poder da literatura. Deus é feito de letras e papel, tenho certeza disso.
3. Flerte furiosíssimo entre o senhor embaixador da pudicícia Henry James e alguns homens que passaram por sua vida. Troca de olhares e gentilezas com o empregado do castelo irlandês, segure a respiração, oh meu deus do céu! O escultor em roma, tirano da beleza, dorian gray deixando desendentes. A deslumbrante cena do banho, a tensão sexual entre James e Holmes que fazem as páginas do livro ferverem, exalarem calor, só quem é veado e sabe que nessa vida de veado nos é negado a construção da relação amorosa, ou seja, caímos despreparados e velhos, rubicundos como tomates homossexuais natalinos: ver, de verdade, um homem pelado!
Deus abençoe Colm Tóibín, Deus abençoe Henry James, Deus me abençoe.
Ps: pedi de presente de natal "os embaixadores", vai ser meu primeiro livro dele depois de conhecê-lo tão profundamente. Papai-noel, não seja filho da puta, quero meu presente!
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