quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu

Depois da janta, sabe-se lá porque, eis que na sala alguém perguntou:

Qual é mesmo o nome do cara do Dom Casmurro que não é o Bentinho?

Não quero com essa introdução dar a entender que na minha casa só se fala de literatura, se fala, é claro, mas não somente. Essas perguntas, exercícios mnemônicos creio eu, pululam de nossas bocas e podem ser sobre qualquer assunto.
Gnu é magro ou é mais búfalo? perguntamo-nos esses dias.

E não é que eu não sabia! (não sobre o gnu. eu não sabia sobre o cara do dom casmurro que não era o bentinho; sobre o gnu eu sabia, sou especialista em gnus)

Me intimei a ler Dom Casmurro, que por ranço colegial ainda não tinha tido a decência de ler.

É tão incrível a passagem do tempo, as mudanças que nos ocorrem. Na minha época de colégio eu jamais imaginaria a maravilha inexplicável que é essa história.

Exemplifico transcrevendo o primeiro parágrafo:

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos.

Fiquei completamente apaixonado. Machado de Assis é meu melhor amigo e eu não sabia. Não vou ficar descorrendo sobre os méritos do livro, porque deve parecer tão infantil alguém emocionado porque descobriu Machado, mas de qualquer forma, algumas considerações eu farei.




Bentinho é genial, amo ele, não sei porque tinha a impressão de que ele era um chato. ele é maravilhoso, sensacional, hilário, despretensioso, apaixonado, poeta nato sem pedantismos. Um sonho!!!! Capitu é uma coisa sem explicação, do banho que ela tomou no mar nasceu a magia da mulher.

Sei que todo mundo fala sobre a porra da traição. Fico chocado, sinceramente. Qual a relevância disso??? O que me encantou foi a maravilha que o Machado consegue fazer com as palavras, frases lindíssimas, eu vira e mexe abraçava o livro, beijava. nada se iguala àquelas primeiras cenas, a adolescência. Foda-se o adultério ou o não-adultério.

As pessoas que discutem isso como se fosse o grande trunfo do livro são absolutamente chatas e sem imaginação. Pragmáticos, quase norte-americanos.

Viva a cor de pitanga que enrubesce as faces, o ciúmes do mar, o leproso e sua felicidade na batalha intelectual, viva as tranças de capitu, os superlativos do agregado, os três viúvos!!!


Dom Casmurro é combustível para a vida, deve-se viver porque o livro foi escrito!


Todo o meu amor para o Machado! Treino de noite no espelho olhos de ressaca, se algum dia encontrá-lo em outro mundo, vou tentar seduzí-lo.

3 comentários:

  1. O meu amigo maravilhoso Enzo, que não tem conta do google (favor alterar suas configurações para comentários), quer trocar uma idéia com você sobre Karen Blixen e Flannery O´Connor. Ele pediu para que eu deixasse esse recado.
    Aqui está o mail dele: enzopotel@yahoo.com.br

    abraços!

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  2. Tbm tive sensações parecidas ao reler Machado ( a escola quase acaba com a gente!), é incrível!

    Já leu 'Memórias Póstumas de Brás Cubas'?
    Melhor romance já escrito no UNIVERSO!

    Beijos queridão!

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  3. Í.ta** Entrarei em contato sim, com o maior prazer! E alterarei as configurações, assim que eu descobrir como!

    Abraço!

    Juliane:
    Sim, é uma delícia!! Amo marcela!! Beijão!

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