segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Au Au

Muito de vez em quando uso espaço no blog para falar especialmente de um filme, mesmo que o cinema ocupe grande espaço no meu coração e que muitos filmes façam parte de quem eu sou e do que eu acredito, como pernas ou braços invisíveis que me ajudam a ficar de pé. Acredito que seja uma espécie de egoísmo, eu odeio dividir filmes que eu amo.


Ao falar de um livro eu não sinto que ele possa ser roubado de mim, (ou até mesmo que corra o risco de ser difamado), porque ler é algo que demanda disposição, se alguém se interessa por um livro sobre o qual eu tenha falado e de fato o lê é algo que me deixa feliz, pois sei do poder de engrandecimento dessa leitura, acredito que seja quase uma contribuição para a melhora da humanidade. Se alguém não gostar é perda sua, o livro não sofre.


Assistir a um filme, por outro lado, demanda apenas poucas horas, o que significa que mais pessoas o façam, e por consequência, o cinema se torna tão mais fácil de ser mal interpretado, e tem tão mais comentaristas e críticos idiotas. Como falam merda sobre os filmes, como são pedantes e burros os que se acham entendidos. Enfim, não gosto de falar sobre meus filmes, mas às vezes fico tão comovido que não me controlo. I can't help myself!




Sempre acompanhamos o Festival de Cannes, também com esse nome não poderia ser de outra forma, e nossa vida cinematográfica é muito regida em função do que é exibido no Festival (na mostra principal e nas mostras paralelas, Un certain Regard, quinzena de realizadores). Também gostamos dos outros festivais, mas como Cannes não há!


Meu irmão que sabe muito mais de cinema do que eu (em termos de informação, na sensibilidade somos bastante equivalentes) apareceu ontem em casa com um dvd gravado, riscado de canetinha "Kynodontas", película que descreveu como:

"O filme grego que ganhou Certain Regard, da família bizarra, meio Jardim de Cimento".


Dente Canino, primeiro filme de seu diretor Yorgos Lanthimos, é uma das melhores coisas que já vi. É inacreditável descobrir uma outra voz tão única, original e competente no cinema. Tenho um grupo de diretores favoritos (Rohmer, Kiarostami, Kaurismaki, Honoré, os Dardenne, Hirokazu Koreeda, Miyazaki, Hanneke, ... , que amo como amo os autores, meus amigos) e fazia tempo tinha quase certeza de que demoraria muito e era até improvável que alguém de fora passasse a integrá-lo. É genial conhecer o trabalho de alguém assim, que não mistura referências, mesmo que referências boas; alguém que faça seu próprio cinema.






O filme tem uma ressonância Flanneryiana, uma perfeição no contar a história, uma consciência particular do dever de apresentar uma narrativa, com ações, conflitos, e não uma orgia de questionamentos flutuantes.

Um pai e uma mãe que resolvem criar seus filhos em um universo particular, isolado. Inventam significados novos para palavras, ensinam e praticam gestuário canino (latem, se lambem), divertem-se através de um entretenimento bizarro e cômico (vovô Sinatra, aviões), a natureza é pervertida, os conceitos morais todos existem de outra forma.



Pouco mais de uma hora e meia de acesso a um mundo novo no qual experimentamos uma nova realidade. Não acho que seja sadismo, nem uma resposta aos que culpam a cultura de massa e o culto a violência pelo mau comportamento das pessoas, para mim o filme trata das possibilidades elásticas do desenvolvimento de nossa humanidade.


Como alguém faz isso? Mas faz, e faz todo o sentido. Não parece, mas é gente!


Uma loucura construída com tanto realismo e simplicidade que se torna inegável seu reconhecimento e sua validação como possibilidade, como mundo novo.

E tem cena de dancinha!!!!


Não me permito discorrer sobre detalhes da história pois estragaria a experiência!


As cenas são um escândalo, a violência tenebrosa, mas eu juro, é um encanto.







Parece até um conto da Flannery.

5 comentários:

  1. Porra, doidera. Eu vi o trailer. Tô louco para ver o filme agora... Qndo será que chega por aqui? Ou em dvd? Abs.

    Túlio

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  2. Ah! Esqueci de dizer... F. O'connor. Já leu Carson Mccullers? tbm é mto bom!

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  3. Juro!... último post, dps caio fora. Vi sua foto, vc parece o cara do "Garotas Suecas". A banda, sabe? Igual ele naquela música... "Codinome dinamite" Dá uma 'enyoutubada' dps e confere para ver se não parece...

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  4. Acho super difícil que chegue para alugar, é bizarro demais. Olha só, aqui tem o link para baixar o filme, esse site é ótimo:

    http://laranjapsicodelica.blogspot.com/2010/05/dente-canino-2009_22.html


    Sobre o cara da banda, hahahahahahahahaah, parece!

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  5. Filme incrível e lindo visualmente. Volta e meia penso nele. Sensacional.

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