sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O cão enguia

Casais silenciosamente infelizes me encantam, eu gosto da elegância sofrida de seus gestos. Um casal em crise silenciosa, na década de vinte, no Japão, e ainda por cima com uma legislação prórpia de como devem portar-se para que a relação chegue a um fim digno, é do tipo de maravilha que faz com que a vida ganhe sentido.




Há quem prefira urtigas é um sonho. Somos jogados sem aviso no meio do conflito de sutilezas do casal protagonista, Kaname e Misako, absolutamente incapazes de tomarem qualquer atitude em relação às coisas mais simples. Já nas primeiras páginas, Junichiro Tanizaki nos apresenta o tipo de comportamento com o qual iremos conviver ao longo daquelas páginas:


"Era como se os dois segurassem entre eles uma tina rasa cheia de água, à espera de que o líquido corresse naturalmente para um dos lados e lhes revelasse a inclinação do vasilhame".


É sensacional ir descobrindo pouco a pouco o que realmente se passar no interior desse casal, as mudanças que são desencadeadas pela chegada dos outros personagens, o irmão, o sogro, o amante, a mulher do sogro...


Aliás, enquanto nos deixamos misturar aos sentimentos dos protagonistas, outras muitas questões interessantíssimas começam a ganhar peso, florescendo discretamente através de acontecimentos aparentemente banais.


O livro é permeado por referências ao teatro Bunraku, bonecos, bonecos, bonecos!!! Há um grande entrelaçamento das histórias, tudo se mistura em uma orgia de linguagens, imagens, tudo orquestrado com precisão japonesa e poesia de flor de cerejeira. Existe aqui um pouco daquela aura mágica e melancólica do filme de Takeshi Kitano, Dolls.



O personagem do sogro é bastante represetativo da obra do Tanizaki, o apego e a reverência às tradições em perigo. Ele (Tanizaki) quando jovem, se encantou pelo ocidente, se deixou invadir por todo um mundo novo. Mais velho, já finda sua paixonite avec nossa mundanidade glamurosa, passou a constantemente retratar essa ameaça estrangeira e a homenagear as tradições antigas. Uma espécie de mea culpa talvez, convicto de sua missão de escritor e de defensor das maravilhas nipônicas.


Tanizaki também é do tipo que adora dizer coisas grandiosas no meio das conversas entre os personagens.


"Ódio, de verdade, um homem só pode sentir por outro homem"



Não sei se concordo, acho as mulheres tão mais aptas a serem detestáveis. Mas gosto desse tipo de frase, assim solta, no meio de uma conversa no café-da-manhã.





É um livro pequeno, menos de duzentas páginas, mas para ser saboreado devagar, como se tomaria um sorvete de urtigas, eu suponho.


O nome desse post tem sentido, não sou maluco não. O maravilhoso Takanatsu (um japonês cheio de joie de vivre), traz de presente para seu sobrinho Hiroshi (filho de Kaname e Misako), um cachorro chamado Lindy. O menino conta para a família nesse trecho.



" Eu e o tio andávamos à beira-mar, e esse bêbado veio atrás da gente com ar intrigado e disse: 'Que cachorro estranho! Parece uma enguia!'.



Os adultos gargalharam.



- Bem observado! este cão lembra realmente uma enguia. Lindy, você é uma enguia, ouviu bem? - repetiu Takanatsu ainda rindo. "


Temos uma gata chamada miausa, complemente perturbada, magra, constantemente tensa, patas retesadas sempre, uma diaba. Meu irmão há anos (ela tem nove), coloca ela no colo, passa a mão sobre sua cabeça encobrindo suas orelhinhas e diz:


"Minha enguia!"

Maravilhas de um mundo solipsista!


Um livro deslumbrante! É fascinante o acesso que temos aos interiores dos personagens, a forma da escrita, e o final do livro, a última cena, mon dieu! é simplesmnete fantastique!!!


Cada lagarta tem seu gosto, algumas preferem urtigas.


Provérbios japoneses...
todos verdade!

Um comentário:

  1. Interessante!

    E hoje chegou meu Contos Completos da Flannery!

    assim como vai chegar meu 20 contos de Truman Capote, e em breve inicio a odisseia Em Busca do Tempo Perdido!!!

    bjones!

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