segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O maravilhoso funeral da fantasia

Desde que comecei a raciocinar de verdade, se tem uma coisa que me apavora no mundo e me deixa sem entender nada, é o pragmatismo. Por que escolher viver de uma forma chata se o tempo e o mundo estão aí à disposição para que tudo seja possível? Claro, existem problemas de ordem prática, não estou propondo uma vida cósmica de fantasias pirotécnicas 24h/7, mas independente de chatices, a vida pode ser tão mais, mas tão. Ninguém tem que seguir nenhum modelo de conduta, em todos os campos, seja no vestir, trabalhar, sentir. Somos todos, fundamentalmente, alienígenas saídos do corpo de alguma mulher, o mundo está nos esperando pronto, o mínimo que temos é o direito de decidir ao que aderir (com o que compactuar) ou não na maneira como as coisas estão e são organizadas.




Nos penhascos de mármore, de Ernst Jünger, não apenas é uma preciosidade literária em termos de originalidade e encantamento para com sua construção primorosa de cada mínima frase, é muito mais, é a vida como ela deveria ter o direito de ser.
O livro começa lindamente:

"Todos conheceis a profunda melancolia que nos acerca, ao recordarmos tempos felizes."

O texto pulsa em todas as páginas como uma hipnótica melodia feita de sonho, beleza e horror.
Dois homens vivem no mais deslumbrante penhasco, convivem com serpentes mágicas, participam da vida daquele pequeno lugarejo repleto de vindimas e ventos cheirosos, e claro, observam com cuidado de mãe parideira tudo quanto é tipo de flor e planta. Eles são como botânicos, mas sem a chatice da ciência, eles são verdadeiros descobridores das pequenas maravilhas do mundo, são, basicamente caçadores de tesouros da região.

Os primeiros capítulos são um convite ao mais delicioso exercício imaginativo. Prontamente somos tragados pelas palavras, é asustador sentir exatamente como é viver nos penhascos, a vida simples e maravilhosa de colecionar as belezas da existência. Já no segundo capítulo o parágrafo inicial nos convida para dançar e não soltar nunca mais:

"Na primavera, porém, nós nos embriagávamos até o desatino pois esse é o costume da terra. Cobríamo-nos com batas coloridas cujo tecido esfarrapado luzia como a plumagem dos pássaros, e vestíamos máscaras rijas em forma de bico. Pulávamos feito bufões e mexíamos os braços como se fossem asas, tomando o caminho da vila, em cujo velho mercado se erguia a alta árvore dos doidos. Lá se realizava, à luz das tochas, o corso das mácaras; os homens faziam-se de pássaros e as mulheres fantasiavam-se com luxuosas roupas do século pasado. Elas nos dirigiam gracejos com vozes que soavam como caixinhas de música, e nós lhes respondíamos com um estridente grito de pássaro."
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Em determinada parte da história o cotidiano leve e poético é abalado pelo horror da guerra. E o grande trunfo do livro talvez resida justamente em escapar da chatice da grosseria de ser desagradável e gratuito. Para Jünger o horror existe e é perverso e injusto, tudo isso, mas é descrito com tal refinamento e beleza, de uma forma que só um autor genial tem a capacidade de fazer.

Jünger fez parte do exército nazista, logo afastou-se. A clareza com que ele enxerga e representa o horror é perfeita, digna de uma testemunha da ignomínia máxima ao que o ser humano é capaz de chegar. Talvez o verdadeiro coração do livro seja a passagem que segue a uma terrível imagem de mortandade animal:

"É profundo o ódio que arde no coração do vil ao deparar o belo."

Essa é maior a verdade.


Enquanto Jünger representa o fim de um modo de viver encantador em decorrência da guerra, o diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul, se utiliza de meios menores e inegavelmente sublimes para mostrar a morte do encantamento, da capacidade de fantasiar, das pessoas hoje em dia.

No vencedor da Palma de Ouro, Tio Boonmee que podia ver suas vidas passadas, um moribundo que mora no campo está em casa na companhia de alguns parentes e um enfermeiro, aproveitando o ventinho do começo de noite. Quando a escuridão se sobrepõe à luz, inadvertidamente, chegam para se reunir à mesa a mulher do homem e o filho que havia sumido. A mulher é fantasma e o menino um Macaco-fantasma.


Mitologias particulares,frases sensacionais, cenas deslumbrantes!!! É do que há de melhor, nessa vida!!!

É surreal a competência com que o diretor conduz com naturalidade a trama fantástica. Podem pulular fantasmas, mas o naturalismo charmoso acontece brilhantemente nos diálogos e nas interpretações, não dexiando nunca a coisa descambar para um delírio. Uma das personagens mistura em uma de suas frases as palavras "fantasmas" e "imigrantes ilegais", e faz todo o sentido!

Apesar de ser imaginoso ao extremo o argumento nunca se torna secundário. Tio Boonmee não é um homem, é uma maneira de ver o mundo. A sequência final do filme é inacreditável.

Algo que vale ressaltar é o pensamento do protagonista acerca do momento da morte. É algo que me assombrará para sempre, socorro!



Eu peço, encarecidamente, não sejamos agentes do horror. Não sejamos vis. Não sejamos pragmáticos.


Não tem porquê.

3 comentários:

  1. Muito obrigado, fico muito feliz! Escrevi cheio de entusiasmo!

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  2. Que lindo! Preciso agora ser encantada pelo mundo do Tio Boonmee.

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