segunda-feira, 16 de maio de 2011

A gaivota beijoqueira e os mistérios do Umami

Como resistir a um livro que começa com o seguinte diálogo:

"Miedviediênko: Por que a senhorita anda sempre de preto?

Macha: Estou de luto pela minha vida. Sou infeliz."

Eu nunca dei muita bola para texto de teatro, não por mal, mas por simples falta de hábito e também por uma talvez incapacidade de entender o teatro fora do palco. Pessoas atuando diante de uma platéia sempre me deixam nervoso, é como se eu experimentasse a ansiedade e as inseguranças de cada um em cena, me causa pânico e eu evito.

Eis que meu irmão chega em casa, radiante. Ele não fala nada, apenas me estende o braço e me entrega o livro que acabou de ler. O título, “a Gaivota”, não me é estranho, sei que é do Tchekhov, lembro de já o ter guardado em uma das infinitas estantes da livraria onde trabalhei. Meu irmão e eu temos apreço particular por tudo quanto é bicho de pena, adivinhei a simpatia imediata de meu irmão perante este título, eu mesmo devo ter esboçado um sorrisinho irresistível. “Mas é teatro”, eu digo birrento, como se reclamasse que certa comida tem maionese entre seus abomináveis ingredientes. “É genial”, diz meu irmão.

Nunca imaginei o quanto estava perdendo com esse distanciamento entre mim mesmo e o teatro. Teatro, em texto, é conversa! Parece bobo e ingênuo dizer isso dessa forma, mas para mim foi uma verdadeira revelação. Que prazer inacreditável ser testemunha de conversas deliciosas e ter de penetrar na alma dos personagens apenas decodificando o que eles sentem e o que realmente querem dizer quando abrem a boca.

A dinâmica da narrativa é apaixonante. A sensação é de que é o tipo de história em que nada acontece. É como Rohmer, eu penso. Um nada que traz em si verdades escondidas e fundamentais acerca do universo, da vida, da experiência. Me sinto um quase transgressor, retirando do nada cotidiano preciosidades que me parecem agora impossíveis de abrir mão. Os personagens são riquíssimos, pulsantes, extremamente vivos, ainda que de uma vivacidade apagada e quase de fumaça.

Entre as incontáveis problemáticas pessoais, amores, frustrações, desejos, dou de cara, inadvertidamente, com o personagem escritor. Estar perto não é físico, meu Deus como isso é verdade. Me vem aquela sensação indescritível de quando se acha um pedaço faltante de si mesmo, quando a literatura mostra seu poder devastador e recolhemos por meio de palavras de outro uma parte importantíssima que nos fazia de certa forma mancos. Transcrevo o trecho em que o personagem escritor bem sucedido, Trigórin, fala sobre seus tempos de jovem escritor, e que define com crueza e acerto a forma como me sinto diante do medo e da necessidade de desenvolver esse ofício da escrita:

“E antigamente, nos anos da juventude, nos bons tempos, quando comecei, escrever para mim era um martírio incessante. Um escritor menos, sobretudo quando não tem sorte, parece um desajeitado aos próprios olhos, um desastrado, um inútil, vive com os nervos tensos, esgotados; procura irresistivelmente estar perto de pessoas ligadas à literatura e à arte, sem ser reconhecido, sem ser sequer notado, sempre com medo de encarar os outros nos olhos, como um jogador inveterado que está sem um centavo no bolso para apostar.”

Estar perto não é físico, é verdade Ismael Caneppele.

Depois da leitura de “A gaivota”, fiquei alucinado, precisava de mais. Eu tinha trinta reais para sobreviver até o fim do mês, isso acontece sempre, e me coloquei diante do problema da seguinte forma: comprar mantimentos vulgares ou investir na bela edição vermelha que encontrei de “As três irmãs + contos” em um sebo no qual o atendente e proprietário me desperta certas paixões. É claro que cheguei em casa com o livro vermelho debaixo do braço. Prefiro morrer de fome e falta de cigarro que de tédio.

A peça das três irmãs é deslumbrante, a mesma riqueza, o mesmo nada. Há diálogos absurdamente hilários, o que dá ao enredo modorrento e charmoso um ritmo inesperado, apaixonante!

Esses dias, em casa, à noite, eu e meu irmão discutimos as propriedades e encantos do Umami. Aquele sabor mágico que nossa língua é capaz de identificar, que não é doce, não é salgado, não é azedo, não é amargo. Simplesmente Umami. De acordo com nossas pesquisas, módicas porém eficientes, “umami” vem do japonês e pode ser traduzido como “gostoso”; ele está presente, entre outros alimentos, em cogumelos. Acabamos chegando à conclusão de que Umami é algo que pode ser aplicado não apenas ao paladar, mas também às pessoas, às obras de arte, ao mundo. É como se esse “nada” que o Tchekhov desenvolve tão cheio de talento fosse esse quinto sabor da literatura. No cinema, certamente Rohmer é um mestre umameiro, assim como Nicole Holofcener, uma diretora americana que para mim é o que existe de melhor naquele país em termos de película, uma diretora do mínimo, genial, que acredito ser overlooked pela maior parte das pessoas, inclusive as inteligentes e sensíveis.

O livro vermelho, após a peça de teatro, ainda encerra em suas páginas seis contos maravilhosos. “O beijo”, em particular, me fez vibrarem todas as células que tem alguma capacidade de sentir prazer. É a história de um rapaz solitário de um regimento que sofre verdadeira revolução após uma noite de frufrus, cheiros e vivências primaveris em casa de gente rica. A descrição do sentimento de possibilidades infinitas desencadeadas pelo princípio do amor (mesmo que este princípio tenha fabricação pessoal e/ou imaginária) é perfeita. A sensação de menta no canto da boca. Algo que não posso deixar de reverenciar é o cavalo dançarino logo no início do conto. É lindo!

Me embriaguei de teatro, de Tchekhov, de Umami.

Como me satisfaz esse gosto de nada.











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