
As histórias eram deliciosas, as imagens captadas com a câmera comprada em conjunto (meu irmão e o Fábio dividem mensalmente os gastos, acho revigorante essa vontade e esse movimento de gente jovem e artística) eram coloridas e cheias de vida. Foi um festival de caranguejos, melancias, a rua onde Elba Ramalho travou conhecimento com alienígenas, o show surpresa de Reginaldo Rossi, a praia, os coqueiros, uma igreja que parece flutuar quando é noite de lua cheia. Foi uma noite adorável, e ainda voltei para casa com meu presente, um livro, Todos os fogos o Fogo.
Do Cortázar eu apenas tinha lido “A casa tomada”, um conto fascinante e que acredito ser distribuído por fadas disseminadoras de cultura entre as pessoas de coração literário. Digo isso, das fadas, por que muitos dos meus amigos já o leram, e eles nunca sabem dizer onde leram, nem quando, mas todos o amam.
Meu amigo Fábio adora o Cortázar, é um moço que tem amor à literatura, à música, ao cinema, e às suas convicções ideológicas. Confesso que suspeitei que o livro talvez fosse panfletário, ou demasiadamente político, não sei, imaginei que fosse o Fábio tentando me convencer de algo, e deixei o livro em stand by. Bobagem minha, o livro é sensacional.
Cada conto de todos os fogos o fogo é uma experiência nova, um exercício inédito. O autor joga seu leitor de um canto ao outro, sem a menor cerimônia. Pá, se vira agora meu bem, diz ele rindo enquanto o chão e as paredes que construímos desaparecem.
Comecei por “A saúde dos doentes”. O conto é uma maravilha, a sensação que eu tive foi a de um filme da Lucrecia Martel, personagens familiares jogados em cenas sem recursos fáceis de dramaturgia, situações constrangedoras, absurdas, mas tudo com realismo de ares pantanosos, charmoso e decadente, e de dar medo. A família, enquanto unidade, é um colapso nervoso prestes a arrebentar. O mundo deve ser feito de notícias amenas, mas como? É interessante pensar que não há a obrigatoriedade de acontecimentos felizes para a manutenção de um bem estar da mamãe que não pode sofrer abalos, apenas é requisitada a ausência do sinistro. E o acaso opera de forma a esfregar na cara de todos, "quem manda aqui sou eu, não há esconderijo".
Depois li “a senhorita Cora”, e aí sim a coisa começou.
Nada em “A senhorita Cora” realmente acontece. Não há ação, há impressão. Em um fluxo delirante tropeçamos no íntimo de personagens diferentes, às vezes em uma mesma frase. O protagonista da vez muda em um ritmo de impossível previsão, é uma loucura. O mais interessante é que apesar da inovação da forma o conto não se resume a uma novidade sensorial, os personagens são densos e é como se os pegássemos no momento mais particular de suas intimidades quando a "câmera literária" aponta um deles.
“Reunião” abre com uma frase de Che Guevara, pronto, pensei. Meu pai era guerrilheiro, na Argentina, há milhões de anos. Não sei direito o porquê, mas tenho certa resistência a temáticas políticas, talvez seja a lembrança de meu pai enlouquecendo às vezes e confessando para fantasmas, em voz baixa, seus assassinatos e coisas do gênero; se bem que eu não dava realmente bola ao que ele falava quando começava a falar do passado. Acho que o mais provável seja a bagunça. Eu não gosto de bagunça, e revoluções me parecem uma grande bagunça, um cenário pós-apocalíptico, copos jogados, meias jogadas, livros com páginas rasgadas.
Meu Deus como foi esclarecedora para mim essa leitura. Meus conceitos revolucionários sofreram séria mudança. Pela primeira vez entendi que a bagunça é necessária para que seja possível um mundo onde as pessoas realmente desenvolvam seus potenciais humanos, sua sensibilidade. Na época obscura em que as revoluções brotaram, Deus do céu, eram mais que necessárias. Depois da dolorosa companhia que fiz aos rebeldes em sua cruzada por matos e florestas sombrias, fiquei com o sentimento de que algum dia, talvez, eu faça parte, à minha maneira, de alguma revolução, tão necessária.
“A auto-estrada do sul” é um triunfo. O microcosmos destruído. Sou viciado em microcosmos efêmeros, minha vida às vezes se parece com um desfile de ruínas. A angústia e o senso de construção de um mundo novo são tão reais, é assustador. E não apenas isso, mas o fato de o texto esconder os sentimentos de quase todos os personagens e mesmo assim nos sentirmos mergulhados no congestionamento, é realmente uma jóia.
“Todos os fogos o fogo”, o conto-título, é mais um incrível exercício de linguagem, dessa vez com a sobreposição não de personagens, mas de histórias diversas no tempo e espaço. Vou falar sobre coisas que acontecem durante o texto, se alguém não quiser estragar surpresas não continue. Confesso que na minha interpretação o enredo da antiguidade (chato) se passa na televisão da casa do personagem que fala ao telefone com uma mulher. É como se enquanto ele falasse com a Jeanne, o filme se desenvolvesse na tela. Inclusive a pirotecnia final seria uma espécie de amálgama entre as duas histórias antes distantes, juntas finalmente em um significado único e ritualístico. Para ser bem sincero, o conto em si não me encantou, acho que o exercício (este sim sensacional) sobrepujou a história, e no fim eu sempre quero é uma boa história, independente de como ela aconteça. O que realmente é genial nesse conto é a piração dos telefones. As linhas cruzadas são deslumbrantes, o homem invisível que fala números no além é uma obra-prima!
Foi muito bom esse sacolejar desenfreado. As estruturas são móveis, claro!, obrigado Cortázar. Chão não precisa ser chão, nada precisa ser nada. O que fica é uma sensação boa e aventureira. Me sinto, incontestavelmente, mais livre.





que maravilha chegar aqui nessa tríplice atualização!!
ResponderExcluirCortazar! Henry James! Tchekov! Só grandes nomes. Mas só o primeiro me toca, e com... CASA TOMADA! É um domínio público de coração mesmo, de todo mundo... obra-prima é aquilo que dá voz a toda uma geração. Mas ele nos definiu eternamente!
Ou quem sabe então, no dia em que o Rio será uma cidade submersa e os escafandristas irão vasculhas nossas casas, nossos medos serão outros, mais reais.
abraçon!