O livro conta a história do maravilhoso e charmosérrimo Lambert Stretter, um senhor de respeitabilidade inquestionável que é enviado de sua província americana para resgatar um herdeiro de família próspera das garras libertinas de uma Paris que os americanos enxergam como um monstro que usa saia e tem mil pernas sedutoras. Quanta sofisticação na maneira de escrever, Jesus! Como em uma conversa entre japoneses, o que importa é o que não é dito. É um desafio quase grande demais tentar abrir com um facão os matagais quase indestrutíveis do processo de pensamento e das intenções de cada personagem.
Eles são quase todos pessoas velhas, no sentido de que são adultos e de que lhes devemos respeito. Juro que se eu usasse chapéu, tirá-lo-ia da cabeça cada vez que uma das senhoras elegantes da trama anunciasse sua chegada através de letras combinadas. Lambert Stretter é o rei absoluto da racionalização. Tudo que alguém faz em sua presença é material rico para um sem fim de elocubrações refinadíssimas acerca do porquê das possíveis implicações do gesto em questão. Se fulaninha mexe no cabelo durante o passeio matutino, pode esperar, Stretter vai dissecar a alma da mocinha em cinco minutos.
Ter esse contato diário com uma mente tão espetacular quanto a de Stretter nos torna, ao longo do texto, mais inteligentes. Para sermos capazes de penetrar na verdade do romance, opera-se em nosso cérebro e coração por meio de mãos invisíveis uma melhora em nossas capacidades. Escrúpulos, verdades, esplendor, todas essas palavras gravitam em torno de uma trama que se desenvolve, basicamente, na cabeça de Stretter, estimulada por tantas novidades de mundo. A trama é tão mínima que quando algo acontece concretamente nos seguramos onde quer que estejamos sentados para nos preparamos e agüentarmos o golpe. Há um desenvolvimento de apreciação por tudo o que nos envolve. Tem um trechinho que exemplifica essa ideia perfeitamente:
“ ‘Bem, suponho que o responsável seja o destino que nos aguarda, a sinistra trama que nos enreda. Quero dizer que são elementos com os quais não podemos contar. Só disponho de meus parcos meios humanos. Não executamos o jogo recorrendo ao inexplicável. Entregamos toda a nossa energia no sentido de enfrentá-lo, de seguir-lhe o rastro. A verdade é que queremos, não vê’, ele confessou, tomado por um ar estranho, ‘desejamos apreciar um fenômeno assim tão raro. Digamos então que seja a vida’, procurou explicar, ‘digamos que seja a pobre vida, essa nossa velha conhecida, que nos pega de surpresa. Nada altera o fato de que a surpresa paralisa, ou de todo modo absorve... quase tudo que vemos, com mil diabos, que podemos ver.’ ”Dentre os múltiplos personagens, acho que vale citar a melhor coadjovante inventada da história da literatura, Mrs. Barrace. Ela é implacável, tem ares de mulher louca, mas é, como todos os demais, educadíssima.
É um livro deslumbrante, divertidíssimo (não conseguia largar um minuto), e aquece o coração tanto quanto nos enche de polidez.
Eu sou um rapaz bem educado. Eu tenho consciência de minha boa educação. Esses dias mesmo, em um bar fuleiro em que encontrei meus amigos para cervejas em uma terça-feira, dei licença para uma das garçonetes, fiquei parado à espera de que ela passasse por um corredor estreito. Foi mágico observar a mudança que aconteceu nela. A antes grosseirona baixou os olhos como envergonhada, agradeceu em tom de voz baixo, sorriu de leve. A partir daquele instante ela desempenhou seu trabalho com muito mais leveza, foi uma perfeita senhorita garçonete, eficiente, agradável. Tenho certeza de que minha boa educação a tocou especialmente. Ela teve consciência de que não é um bicho cabeludo que anda para trás e para frente. Talvez tudo isso, essas minhas impressões a respeito da garçonete, seja fruto de uma convivência prolongada com as palavras do Sr. Henry James. Tenho orgulho de minha boa educação.
Posso parecer um trapo às vezes, com esse meu cabelo revolto e meu apreço por roupas que parecem cobertores, mas sou, certamente, um rapaz muito bem educado.
Tanto que divido com vocês este livro, meu amor por este livro, como quem oferece um belo chá!



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