quarta-feira, 20 de maio de 2009

O Invisível, o inexplicável.... O Horla....ai.... ai que medo!




Sempre fui alguém atraído pelo medo. Acho que é coisa de nascença. Sendo coisa de nascença, divido essa atração irrestível com o meu irmão gêmeo. Lembro que desde bem crianças sempre adoramos certas palavras, tais como: o medo, o lobo, a noite, o luar, a máscara, o fantasma, o diabo, monstros, monstros empalhados. Tão logo não é surpresa alguma o imenso fascínio que me provoca o senhor Guy de Maupassant, que tem como títulos de seus contos várias dessas palavras. Uma delas ainda me era desconhecida, mas a partir de agora se tornou para sempre parte de meus amores tenebrosos e obscuros. Eu amo o Horla (o autor é de origem francesa, então creio que deve-se dizer le Horlá). Algo que deve ficar claro: tanto eu quanto meu irmão gostamos do medo, mas não de uma forma trivial. Nada de sangue, esqueletos, assassinos, facas e sujeira. Nosso medo amado é frio, seco, longínquo, diáfano, no limite de ser fruto de loucura, de imaginação, ou de ser real. Um medo elegante.





Foi lançado recentemente um livro, uma coletânea com 125 contos de Guy de Maupassant, livro este que sinto ser a porta para muitos pesadelos futuros. Por favor, não se deve pensar que estou falando de um livro de terror, puro e simples com suas fórmulas de imagens grotescas e reviravoltas surpreendentes. Guy de Maupassant escreve algo bem diferente disso. O horror é todo escondido, é todo barulho, é todo sombra e reflexo. Ao longo do texto vou colocar imagens das capas do livro pelo mundo e uma ilustração final bem feia e bem velha inspirada pelo conto. Vou colocar algumas citações do livro, mas nada que estrague a história para quem ainda não leu.



"8 de maio- Que dia maravilhoso! Passei toda a manhã estirado na grama, à frente da minha casa e sob o enorme plátano que a encobre, que a abriga, e lhe dá sombra."

Com esta bela e pacífica frase começa "O Horla", em sua segunda versão, a minha favorita. O conto foi escrito em duas versões. A primeira versão é contada depois dos acontecimentos que quase enlouquecem o personagem principal, ele narra sua história para diversos médicos e sábios em retrospectiva, a pedido de seu médico, o dr.Marrande. A segunda versão é mais perturbadora pois conta os acontecimentos no presente, na forma de diário. E a cada dia sofremos e vivemos tudo que vive o nosso "herói".

Depois do belo início, mais precisamente no dia 12 de maio, as coisas começam a mudar.

"12 de maio- Faz alguns dias que tenho um pouco de febre; sinto-me indisposto, ou melhor,sinto-me triste.
De onde vêem essas influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desalento e nossa confiança em aflição?"

Ainda no texto desse mesmo dia, Maupassant fala de algo recorrente em seus contos, a desconfiança em nossos sentidos.

".Como é profundo esse mistério do invisível! Não podemos sondá-lo com nossos miseráveis sentidos, com nossos olhos que não sabem perceber nem o muito pequeno nem o muito grande (...) com nossos ouvidos que nos enganam, pois transmitem vibrações de ar em forma de notas sonoras. São como fadas que fazem o milagre de transformar em ruído o movimento e por meio dessa metamorfose fazem nascer a música, que torna cantante a agitação muda da natureza."

Que palavras lindas, geniais, maravilhosas.


Conforme os dias passam, o personagem começa a sofrer de um mal inexplicável:

25 de maio-Meu estado é realmente estranho. À medida que o fim do dia se aproxima, uma incompreensível agitação me invade, como se a noite escondesse uma ameaça terrível. (...) Então caminho de um lado a outro da sala, sob a tirania de um medo confuso e irresistível, o medo do sono e o medo da cama. (...) Sinto perfeitamente que estou deitado e que durmo... Sinto e sei... e sinto também que alguém se aproxima, que me olha, me apalpa, sobe em minha cama, se ajoelha sobre meu peito, me prende o pescoço entre suas mãos e aperta...aperta... com toda a força para me estrangular."

Eu já tive uma sensação parecida, não sentia um estrangulamento, mas sentia a iminência de um mal horrível em um meio estado de sonho e não conseguia me mexer. Eu não sei como funciona na cabeça das outras pessoas, mas em horas assim, eu jurei que tinha algo de assombroso me oprimindo.



Voltando ao conto, a partir do pesadelo recorrente de ser quase morto, sua vida em sua é um martírio, e após uma tenebrosa (e linda) caminhada no bosque ele decide viajar por algumas semanas. Volta curado. Ele relembra a viagem e devo dizer que as bizarrices dessa viagem são umas das minhas partes favoritas do conto. Em casa ele sente-se bem em um primeiro momento, mas a calmaria não dura muito. Logo o medo e as sensações medonhas voltam. Durante essas noites se tem o primeiro indício de que talvez algo esteja realmente errado. O personagem dorme em seu quarto, trancado, e certa noite sente sede. Ele tem uma garrafa com tampa de cristal ao lado da cama. Bebe um pouco da água. Acorda no outro dia e encontra a garrafa vazia. Fosse eu,me mudaria no outro dia, ele, sendo pessoa lúcida, acredita ser vítima de sonambulismo. É então que ele realiza testes que achei sensacionais para comprovar (ou descartar) sua teoria.

Esse dia, o 10 de julho, é genial. A narração é tão boa e ao mesmo tempo tão macabra que fiquei em certo pânico, a ponto de fazer o impensável, a ponto de rezar. Que bizarro, não importa o quanto eu leia, o quanto eu perceba do mundo, em momentos de medo e confronto com qualquer suposto acontecimento sobrenatural, se a coisa for feia e não der pra acender a luz, minha primeira reação é fechar os olhos e rezar. É patético, mas é bem humano.



Uma segunda viagem acontece, e nela se apresenta o elemento da hipnóse, algo que considero um dos fatores que tornam tão complexa e vasta a interpretação do conto.

Uma outra citação, política, a respeito de como o mundo se organiza socialmente, foi outro dos elementos que me fizeram amar Maupassant.

"O povo é uma tropa de imbecis, ora estupidamente paciente, ora ferozmente revoltado.(...) E aqueles que dirigem o povo são tão estúpidos quanto ele próprio; em vez de obedecerem a homens, obedecem a princípios, que não podem ser chamados de outra coisa que não de parvos, estéreis e falsos, por isso mesmo são princípios, ou melhor, idéias tidas como certas e imutáveis, neste mundo em que não se está certo de nada, visto que a luz é uma ilusão, que o som é uma ilusão."

Século XXIX, incrível.

A história prossegue cada vez mais sufocante, mas mesmo as cenas assustadoras são sempre lindas. Deixo uma última citação para que quem quer que leia tenha a vontade masoquista de saber o que afinal acontece com este homem assustado.

"6 de agosto- (...) Eu vi... eu vi... eu vi! Não posso mais duvidar... Eu vi! Ainda sinto o frio embaixo das unhas..."

Ler o Horla, à noite, nesses frios que estamos experimentando é algo único. Realmente amo esse universo de nevoeiros e histórias estranhas.

Sou um medroso amante do medo.


(Guy de Maupassant, crazy banana evil)
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Abaixo vem a imagem assustadora.... cuidado!
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2 comentários:

  1. NOOOSSAAA! Quando tu me contou eu já fiquei arrepiada, mas depois dessa imagem... GLUP!

    Mas confesso, quero ler! E confesso também essa atitude estúpida e ridícula, de quando fico com medo recorro à oração. Será culpa da Mércia? Que nos fazia rezar de noite, antes de dormir?

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  2. O Horla é um excelente conto. Depois que li pela primeira vez, me apaixonei.
    Gravei um curta sobre ele, recentemente. Se puder, gostaria muito que assistisse, ele está no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=2Ytpx_d0o3I

    Parabéns pelo post!
    Grande Abraço!

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