
Foi lançado recentemente um livro, uma coletânea com 125 contos de Guy de Maupassant, livro este que sinto ser a porta para muitos pesadelos futuros. Por favor, não se deve pensar que estou falando de um livro de terror, puro e simples com suas fórmulas de imagens grotescas e reviravoltas surpreendentes. Guy de Maupassant escreve algo bem diferente disso. O horror é todo escondido, é todo barulho, é todo sombra e reflexo. Ao longo do texto vou colocar imagens das capas do livro pelo mundo e uma ilustração final bem feia e bem velha inspirada pelo conto. Vou colocar algumas citações do livro, mas nada que estrague a história para quem ainda não leu.
"8 de maio- Que dia maravilhoso! Passei toda a manhã estirado na grama, à frente da minha casa e sob o enorme plátano que a encobre, que a abriga, e lhe dá sombra."
Com esta bela e pacífica frase começa "O Horla", em sua segunda versão, a minha favorita. O conto foi escrito em duas versões. A primeira versão é contada depois dos acontecimentos que quase enlouquecem o personagem principal, ele narra sua história para diversos médicos e sábios em retrospectiva, a pedido de seu médico, o dr.Marrande. A segunda versão é mais perturbadora pois conta os acontecimentos no presente, na forma de diário. E a cada dia sofremos e vivemos tudo que vive o nosso "herói".
Depois do belo início, mais precisamente no dia 12 de maio, as coisas começam a mudar.
"12 de maio- Faz alguns dias que tenho um pouco de febre; sinto-me indisposto, ou melhor,sinto-me triste.
De onde vêem essas influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desalento e nossa confiança em aflição?"
Ainda no texto desse mesmo dia, Maupassant fala de algo recorrente em seus contos, a desconfiança em nossos sentidos.
".Como é profundo esse mistério do invisível! Não podemos sondá-lo com nossos miseráveis sentidos, com nossos olhos que não sabem perceber nem o muito pequeno nem o muito grande (...) com nossos ouvidos que nos enganam, pois transmitem vibrações de ar em forma de notas sonoras. São como fadas que fazem o milagre de transformar em ruído o movimento e por meio dessa metamorfose fazem nascer a música, que torna cantante a agitação muda da natureza."
Que palavras lindas, geniais, maravilhosas.

Conforme os dias passam, o personagem começa a sofrer de um mal inexplicável:
25 de maio-Meu estado é realmente estranho. À medida que o fim do dia se aproxima, uma incompreensível agitação me invade, como se a noite escondesse uma ameaça terrível. (...) Então caminho de um lado a outro da sala, sob a tirania de um medo confuso e irresistível, o medo do sono e o medo da cama. (...) Sinto perfeitamente que estou deitado e que durmo... Sinto e sei... e sinto também que alguém se aproxima, que me olha, me apalpa, sobe em minha cama, se ajoelha sobre meu peito, me prende o pescoço entre suas mãos e aperta...aperta... com toda a força para me estrangular."
Eu já tive uma sensação parecida, não sentia um estrangulamento, mas sentia a iminência de um mal horrível em um meio estado de sonho e não conseguia me mexer. Eu não sei como funciona na cabeça das outras pessoas, mas em horas assim, eu jurei que tinha algo de assombroso me oprimindo.
Voltando ao conto, a partir do pesadelo recorrente de ser quase morto, sua vida em sua é um martírio, e após uma tenebrosa (e linda) caminhada no bosque ele decide viajar por algumas semanas. Volta curado. Ele relembra a viagem e devo dizer que as bizarrices dessa viagem são umas das minhas partes favoritas do conto. Em casa ele sente-se bem em um primeiro momento, mas a calmaria não dura muito. Logo o medo e as sensações medonhas voltam. Durante essas noites se tem o primeiro indício de que talvez algo esteja realmente errado. O personagem dorme em seu quarto, trancado, e certa noite sente sede. Ele tem uma garrafa com tampa de cristal ao lado da cama. Bebe um pouco da água. Acorda no outro dia e encontra a garrafa vazia. Fosse eu,me mudaria no outro dia, ele, sendo pessoa lúcida, acredita ser vítima de sonambulismo. É então que ele realiza testes que achei sensacionais para comprovar (ou descartar) sua teoria.
Esse dia, o 10 de julho, é genial. A narração é tão boa e ao mesmo tempo tão macabra que fiquei em certo pânico, a ponto de fazer o impensável, a ponto de rezar. Que bizarro, não importa o quanto eu leia, o quanto eu perceba do mundo, em momentos de medo e confronto com qualquer suposto acontecimento sobrenatural, se a coisa for feia e não der pra acender a luz, minha primeira reação é fechar os olhos e rezar. É patético, mas é bem humano.
Uma segunda viagem acontece, e nela se apresenta o elemento da hipnóse, algo que considero um dos fatores que tornam tão complexa e vasta a interpretação do conto.
Uma outra citação, política, a respeito de como o mundo se organiza socialmente, foi outro dos elementos que me fizeram amar Maupassant.
"O povo é uma tropa de imbecis, ora estupidamente paciente, ora ferozmente revoltado.(...) E aqueles que dirigem o povo são tão estúpidos quanto ele próprio; em vez de obedecerem a homens, obedecem a princípios, que não podem ser chamados de outra coisa que não de parvos, estéreis e falsos, por isso mesmo são princípios, ou melhor, idéias tidas como certas e imutáveis, neste mundo em que não se está certo de nada, visto que a luz é uma ilusão, que o som é uma ilusão."
Século XXIX, incrível.

A história prossegue cada vez mais sufocante, mas mesmo as cenas assustadoras são sempre lindas. Deixo uma última citação para que quem quer que leia tenha a vontade masoquista de saber o que afinal acontece com este homem assustado.
"6 de agosto- (...) Eu vi... eu vi... eu vi! Não posso mais duvidar... Eu vi! Ainda sinto o frio embaixo das unhas..."
Ler o Horla, à noite, nesses frios que estamos experimentando é algo único. Realmente amo esse universo de nevoeiros e histórias estranhas.
Sou um medroso amante do medo.

(Guy de Maupassant, crazy banana evil)
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Abaixo vem a imagem assustadora.... cuidado!
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NOOOSSAAA! Quando tu me contou eu já fiquei arrepiada, mas depois dessa imagem... GLUP!
ResponderExcluirMas confesso, quero ler! E confesso também essa atitude estúpida e ridícula, de quando fico com medo recorro à oração. Será culpa da Mércia? Que nos fazia rezar de noite, antes de dormir?
O Horla é um excelente conto. Depois que li pela primeira vez, me apaixonei.
ResponderExcluirGravei um curta sobre ele, recentemente. Se puder, gostaria muito que assistisse, ele está no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=2Ytpx_d0o3I
Parabéns pelo post!
Grande Abraço!