Acabo de terminar a leitura de Minha Querida Sputnik. Um livro que tem todos os requisitos para ser fabulosamente incrível. Adorei-o, até certa parte. É tão estranho quando isso acontece. Existem muitos elementos que eu sei que me encantam, mas não sei porque razão não consegui me ligar profundamente aos personagens. Sumirê tem 22 anos se veste com roupas ótimas e é maluca mas sem amigos, tímida, bookwarm. K é o narrador, professor primário, 2 anos mais velho e melhor amigo de Sumirê, apaixonado por ela. A relação da Sumire (personagem incrível) e do narrador K me pegou em um primeiro momento como algo warm e acolhedor e suspirinhos. Mas ela evolui no texto e passa a ser tão, de certa forma, exclusiva e hermética, que eu me senti distante deles. Existem passagens boas, mas no fim das contas fiquei com uma sensação de vazio. A inconstância do texto é parte fascinante parte simplesmente estranha (e não um estranho bom). A parte fascinante diz respeito às vozes claramente únicas dos personagens. É bastante impressionante ver os dois tipos tão próprios de escrita que cada um tem. A parte estranha para mim se dá na transição um pouco capenga de momentos mágicos e bem escritos para momentos de realidade simplistas e até caricatos. A cena do parque de diversões é incrível. A cena no supermercado e consequentemente da conversa com o aluno me soou bastante fake e quase amadora. Por favor, não quero parecer arrogante nem nada disso, apenas descrevo as impressões que me são causadas.
Fiquei com uma sensação de certo incômodo. O prazer da literatura, o "devorar livros" é característica importantíssima em K e Sumire. Porém parece que esse amor pelos livros nem sempre é tratado como amor de fato. Os livros parecem ser uma espécie de "conforto", ou mais como uma "bengala" para que ambos se sustentem em um mundo onde se sentem esquisitos. E me fica um pouco o clichê das pessoas que amam ler e portanto são taciturnas e obscuras. Quero dizer..........Eu não sou assim, ou será???!!! Medo. hahaha!!
Mas devo valorizar coisas inegeaveis. Nota-se que as palavras são carregadas de uma entrega absoluta do autor. E as cenas de sexo, ou de desejo, são todas muito, muito honestas. A paixão arrebatora, como um tornado, e que vem do nada é retratada de forma quase que palpável.

Vou transcrever dois trechos de conversa entre Sumire e K que adorei, pela sua simpicidade e senso de realidade.......O cenário é o seguinte: Sumire ligou para K de madrugada, pede que ele lhe explique certa coisa, ele explica de forma satisfatória, e a conversa prossegue...
"- Sempre fico perplexa em como você é bom em explicar as coisas.
-É o meu trabalho. Repliquei -Você devia, um dia, tentar ser professora do ensino fundamental. Não pode imaginar o tipo de perguntas que me fazem. 'Por que o mundo não é quadrado? Por que as lulas tem dez braços e não oito?' Aprendi a dar resposta a quase tudo.
-Você deve ser um grande professor.
-Tenho minhas dúvidas- eu disse. Eu realmente tinha minhas dúvidas.
-A propósito, por que as lulas tem dez braços e não oito? "
A outra parte que adoro é logo na sequência, K tenta se despedir e Sumirê diz que está apaixonada. Ele diante dessa declaração:
"....-Estou apaixonada.
Eu não tinha a menor idéia de como responder. E como quase sempre acontece quando não sei o que dizer, deixei escapulir um comentário meio descabido. -Não por mim, suponho.
-Não por você- respondeu Sumire. Ouvi o som de um isqueiro acendendo um cigarro. - Está livre hoje? Gostaria de falar mais.
-Quer dizer, sobre você estar apaixonada por outra pessoa que não eu?
-Exato- disse ela. -Sobre eu estar perdidamente apaixonada por outra pessoa que não você. "
Ainda tenho muita vontade de ler Caçando Carneiros e Kafka à beira-mar. Mas por enquanto Haruki Murakami ainda não ganhou a chave do meu coração! Última coisa da Sputnik, já ia esquecendo, tem uma música brasileira que é mencionada no livro, que é maravilhosa!! Olhem esse vídeo e iluminem um dia chato.

O outro Murakami de quem gostaria de falar é o autor de Miso Soup, Ryu Murakami, um ex-baterista de banda J.Rocker . Este romance, que li há mais de um ano, foi daquelas viagens literárias absolutamente envolventes. Conta a história de um jovem japonês que ganha a vida como uma espécia de guia do turismo sexual em Tokyo. O clima de suspense terrível e sufucante se dá quando o personagem Frank chega dos Estados Unidos e pede-lhe seus serviços. O livro tem cenas grotescas, algumas gráficas daquelas de fazer careta. Admito que essas cenas são bobas, mas achei-o como um todo irresistível. Morria de medo do Frank!
Acho que uma comparação boa é a seguinte: cada página nos faz sentir como quando estamos voltando para casa depois do horário, e sentimos um perigo terrível nos rodear,e quando de repente vimos alguém se aproximando, encontramos um bar ou locadora aberta e entramos para ter aqueles poucos minutos de sossego em meio ao caminho que parece não chegar nunca ao destino final. E isso se repete até a última frase.
O desfecho é simplesmente lindo! Não é uma obra prima, mas é um livro despretensioso, divertido, assustador e inesquecível. Li faz pouco que o Wim Wenders vai dirigir a versão cinematográfica de Miso Soup! Cannes 2010???
Tenho uma pilha de livros incríveis me encarando, e dentre eles está o singelo "Um Artista do Mundo Flutuante" do Kazuo. Tenho quase certeza de que assim assim que terminá-lo mostrarei aqui o meu amor por esse Japonês e pelo Japão de uma forma bem mais enlouquecida!

Francamente, tu escreve muito delícia de saber destes livros ! Este blog é MUITO bom, Juergen ! As pessoas tem que saber que ele existe !
ResponderExcluirAussi, porque K chama sua moça de Sputnik?
Ahhh é lindo! Primeiro a Sumire chama a Miu de "Sweetheart Sputnik" porque quando elas se encontram a primeira vez elas conversam sobre livros, e a Sumire diz que tá lendo Kerouac, daí a Miu fala "ahh, ele faz parte daquele movimento... os Sputnik!" huahuaha daí a Sumire acha bonitinha a confusão dela e chama ela de querida Sputnik. O K chama a Sumire de Sputink em uma metáfora dos satélites perdidos orbitando interminavelmente até que eles se cruzam, como se os dois fossem satélites. Acho lindo.
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