O amor... todos precisamos de amor. O amor é algo tão obscenamente complicado quanto a própria existência. Mas, apesar de toda a complexidade eu tenho algumas certezas sobre ele. Uma delas (que tenho para mim como uma espécie de verdade absoluta ) é que o nosso primeiro amor não é pelo fulaninho lindo com o cabelo perfeito e sorriso descompromissado, e sim pela descoberta da nossa capacidade de amar. Isso infelizmente não é conclusão minha, é algo usurpado do Yukio Mishima. Enfim, depois desse primeiro amor, vem os outros... Tão complicados... Mas há esperança, como não! Há aquela paixão correspondida, aquela compreensão mística, transcedental, que nos faz sentir únicos no mundo. Este é o amor que sentimos quando nos apaixonamos por um livro!!! E realmente Homem Lento vai para sempre figurar entre meus amantes tão, tão queridos. Quando um livro realmente me encanta eu tendo a querer explorar todas as genialidades do texto, portanto talvez este seja um post longo.

Sou completamente apaixonado pelo J.M Coetzee. Desonra é um livro tão powerfull que consegue desestabilizar e destruir qualquer pessoa enquanto é lido. A Vida dos Animais mudou completamente a minha vida. Sempre fui defensor dos animais, mas não tinha argumentos bons o suficiente para entrar em alguma discussão, era algo instintivo mesmo, eu era um defensor de araque, digamos. Mas Elizabeth Costello, a personagem principal de A Vida dos Animais com suas palestras sobre os direitos dos animais me invadiu e mudou minha visão de mundo. O livro na verdade surgiu de um convite que foi feito a Coetzee para apresentar palestras em um grande circuito acadêmico de seminários em uma universidade da qual não me lembro o nome. Coetzee ao invés de chegar e apresentar suas palestras, fez a leitura de seu novo livro. Elizabeth Costello, uma senhora e escritora, é como o próprio autor já afirmou o seu alter ego.
Hoje acabei o meu terceiro livro do "Cã-tzi-yah" (assim se pronuncia Coetzee), Homem lento.
O livro conta a história de Paul Rayment, um velho, com uma vida "confortável" que um dia anda alegremente de bicicleta aproveitando o solzinho, quando é atingido por um carro que esmaga um de seus joelhos. Como consequencia do ferimento, a perna de Paul é amputada. Eu já estava preparado para sofrer tudo quanto fosse de momentos horríveis que certamente um homem amputado sofre, mas o livro não é uma história de um homem velho e amputado, enfim, de um homem fodido. O livro trata sim dessa experiência terrível, mas ao mesmo tempo é uma brincadeira ou exercício sensacional com a estrutura da narrativa, com o papel do autor e do personagem. É um livro para pessoas que já conhecem o trabalho do Coetzee, logo nem preciso dizer que me senti especial, escolhido dos deuses, por ter o conhecimento necessário para entender o texto. Eu imagino que para quem nunca leu nada dele, pegar o Homem Lento como primeiro romance deve ser uma experiência mui frustrante.

A reviravolta na história começa na página 88. Paul Rayment está em casa, ele já passou um período no hospital, está sofrendo terrivelmente com a nova condição, é um homem sozinho, e está começando a se apaixonar por sua enfermeira casada Marijana (amo o "j" com som de "i", por que será?) e então o interfone do seu apartamento toca.
"'Mr. Rayment?', diz a voz no interfone. 'Aqui é Elizabeth Costello. Posso falar com o senhor'"
Depois de subir ao apartamento, Elizabeth Costello encontra um Paul Rayment confuso, que não entende o porquê da presença dela. Elizabeth é uma escritora respeitada na Austrália, onde a história se passa, ele a conhece de nome, mas a presença dela em seu apartamento não faz nenhum sentido. Ela sobe ao apartamento, senta-se com Paul Rayment perplexo e então começa dizendo:
"Eu sou como São Tomé, como pode ver. (...)
Quero dizer, por querer ver por mim mesma que tipo de ser é o senhor."
Ela se ajeita no sofá e começa a recitar:
"O choque o colhe pela direita, duro, surpreendente e doloroso, como uma faísca elétrica, e levanta seu corpo da bicicleta. Relaxe!, ele diz a si mesmo enquanto voa pelo ar."
Eu quase MORRI nessa hora. Acho que nunca me arrepiei tanto lendo um livro. Essas palavras que ela recita são simplesmente as palavras do primeiro parágrafo do livro. É o autor disfarçado de personagem se revelando. SENSACIONAAAAAAAAAL! GENIAAAAAAAAAL.
Eizabeth fala:
"O senhor me ocorreu - um homem com uma perna ruim, sem futuro e com uma paixão inadequada. Foi aí que começou. Para onde vamos daqui, não faço a menor idéia. O senhor tem alguma proposta?"

É o autor provocando o personagem e deixando o personagem ainda mais vivo, e mais frágil. Ele é prisioneiro da história, de quem escreve a história. Ele não sabe quem é aquela mulher e não entende como ela sabe tanto sobre ele. É incrível a relação que se constrói entre os dois.
Ao mesmo tempo o leitor fica meio inseguro, órfão do autor todo poderoso, cria-se uma sensação de que a história vai se definindo a cada palavra, é absurdamente bom.
De início achei que fosse a maneira do Coetzee brincar com um possível "bloqueio" que ele possa ter tido, e talvez a história tenha começado assim mesmo, mas a presença de Elizabeth acaba se tornando grande força do livro. Não vou descrever os acontecimentos detalhadamente, até porque isso talvez fosse maçante, mas tenho de citar algumas passagens incríveis, como por exemplo uma conversa entre Paul e Elizabeth, quando ela lhe fala sobre uma história: Simbad e o Velho.
" À margem de um riacho cheio, Simbad encontra um velho. 'Estou velho e fraco' diz o velho. 'Me carregue até o outro lado e Alá há de te abençoar.' Comotem bom coração, Simbad levanta o velhonos ombros e atravessa o riacho. Mas quando chegam do outro lado o velho se recusa a descer. Na verdade, aperta as pernas em torno do pescoço de Simbad até ele sentir que está sufocando. 'Agora você é meu escravo', diz o velho, 'tem de fazer tudo o que eu mandar.' "
Paul responde a Costello:
" 'Devo entender que eu sou o Simbad da história e você o velho? Nesse caso, vai enfrentar uma certa dificuldade. Você não tem meios de- como dizer isso delicadamente?- subir nos meus ombros. E eu não vou ajudar.'
Costello dá um sorriso cheio de segredos. 'Talvez eu já esteja aí', diz ela, 'e você não saiba' ''.
Essas pequenas insinuações que ela faz para ele são maravilhosas. Mas diferentemente do que se possa imaginar, Elizabeth não é nem de longe um ser superior, ela sofre, e muito! A história desse personagem, o propósito desse homem amputado é algo que lhe martiriza sem fim. E ela briga com Paul por ele não ser um personagem mais, agilizado, digamos. É como se dependesse de Paul viver coisas incríveis para que Elizabeth possa escrever, Coetzee é perverso com o personagem e com sua alter ego. No meio dessa loucura toda, existe uma história incrível, como sempre. Uma reflexão sobre a velhice, eu achei particularmente linda. Um personagem jovem pergunta na casa de Paul, que é cheia de velharias, se ele "Não gosta de coisas novas?".
A resposta:
"Isso tudo um dia foi novo. Tudo no mundo um dia foi novo. Até eu era novo. Na hora em que nasci, eu era a coisa mais moderna, mais nova da face da Terra."
Teary eyes pra mim! Morro de medo da velhice...
O sexo é como sempre nos livros do Coetzee escrito de forma incrivelmente honesta, crua, mas nem por isso sem poesia. Tem uma cena de sexo entre o coxo e a cega que é bizarra (ótima), aliás não só o sexo, mas a personagem cega em si é bizarríssima.
Para encerrar, vou colocar uma parte que acredito ser bastante reveladora do próprio Coetzee, sei que ele perdeu um filho jovem, de vinte e poucos anos, num acidente de carro. Esse trecho, quase no fim do livro, me parece bastante... confessional. Elizabeth e Paul se mostram, de certa forma, complementares. Elizabeth fala:
"Sozinha em Melbourne, em uma casa vazia, entrando em seus últimos dias, faminta de amor, e a quem ela se volta em busca de alívio, se não a um homem em outro estado, um retratista aposentado, um estranho total, porém um homem que sofreu um golpe pessoal e que tem sua própria necessidade de amor."
O livro é maravilhoso, incrível, genial! Coetzee eu te amo! Toujours!

(Coetzee jovem...casava hoje, ontem, sempre! Lindo e gênio....AHHHHH)
Ps: são 6:37 da manhã, estou meio vesgo, mas tinha que escrever depois de terminar o livro. Perdoem-me por eventuais erros. ;D

P.S.: A Lúcia Carolina não precisa de amor.
ResponderExcluirhahahahahahaha, tu é ótimo "sso infelizmente não é conclusão minha, é algo usurpado do Yukio Mishima. Enfim ..."
ResponderExcluirO marido já não reclamava das noites sem a sociedade no sono.
ResponderExcluirO ser humano se une em matrimônio, formalmente, entre outros motivos para dividir os momentos estritamente íntimos e particulares que ocorrem no interior de cada indivíduo e são naturais, presente em todos os homens, desde o primeiro. É entre ousadia e covardia, emoção, ventura, dito e medo: Não viver plenamente sozinho as horas em que se esta, definitivamente, sozinho. Romper, desorganizar e insultar o definitivo.
A sorte da lucidez amplia o amor (organizado para apaziguar qualquer fragilidade e organizar só é preciso se há pouca substância para muito espectro): O marido poderá se apaixonar pelo ritmo de tudo o que cria o nome daquele que ama; Ou insistir que a união deve resolver a carência da certeza que somos parte de um mundo pleno de evidências e sentido, sentido no próprio funcionamento.
Eram cinco horas da manhã, de Vincent via-se as costas encurvadas, revestidas de lã grossa. A literatura é madura, definitivamente, Vincent perdia os vinte um anos quando escrevia e sua idade era a de todos amantes deste sexo da sintaxe e da imaginação e seu corpo envergado como o de um velho ficcional.
A literatura é lúdica e é a mais pura e desajeitada entre todas as crianças: Os olhos cor de felino indefinido de Vincent não sairiam do texto na próxima uma hora e trinta e sete minutos; A cada avanço mais cobiçosos, entusiasmados e nervosos.
O resto do seu corpo, a cervical quase dobrada, a mesma roupa do dia, a sensação de frio, a recusa do sono, tudo era obséquio e disposição ao seu fervor criativo.
Vincent era dócil com suas paixões, então que outro gesto poderia decorrer finda a leitura do seu autor/amor se não ampliar a extensão da existência daquele criador; Que outro gesto seria próprio de Vincent, senão demorar-se?
Leve de paixão e sono, extasiado de ciência madura e pulso infante, ele não conhecia o que havia da Física Quântica no seu trabalho de dizer mais, dizer pra sempre, sua conversa fantasia com os senhores e senhoras com quem passou aquela noite: Vincent modificou uma energia, continuou esta energia e ainda mimetizou-se.
A biologia não descreve aquele processo para a espécie humana, mas a biologia não dá conta das horas entre jornadas, onde se compartilha do que é definitivamente particular e individual, beija-se, completa-se leituras e mimetiza-se.
O mimetismo de Vincent:
(continuará)