segunda-feira, 6 de julho de 2009

Comendo palavras

Eu adoro primeiros livros. Adoro a vontade enorme de escrever que os autores deixam transparecer, e não só a vontade, mas o primeiro livro tem um quê de “sem vergonha” que acho uma delícia. “A morte do Gourmet” (tradução dramática do título original, singelo e melhor “Une Gourmandise”), primeiro livro de Muriel Barbery é cheio de delícias. Fiquei realmente impressionado. O enredo a princípio parece simplista e bobo, “maior crítico gastronômico do mundo à beira da morte tenta relembrar de um gosto particular que está nas suas lembranças mas que ele não consegue identificar”. Comecei a ler com uma certa reserva mas acabei me rendendo a ingredientes aos quais simplesmente não resisto: Hortas místicas, Pai que não ama os filhos e é bem resolvido com isso, Animais pensantes à la Tolstói e narrativa desconstruída. Nhamnham!



A hitória é narrada de duas formas, o personagem principal malvado e charmoso tentando descobrir o gosto perdido viajando por suas lembranças e os outros personagens (filhos, mulher, amigos, mendigos!) narrando suas reações ante a morte desse homem fascinante.

Na ego trip gastronômica somos tragados e jogados em cenários incríveis cheios de cores e de magia. As memórias da infância me fazem querer me matar um pouco! Temos de avó sensacional e férias em praias marroquinas à início de juventude consagrado pela descoberta de um alcóol sagrado em cenas que beiram ao puro universo dos sonhos. Eu não sei muito da quimíca envolvida na culinária, mas fiquei bem convencido pelas descrições complexas e super ricas da preparação de cada prato e das sensações entorpecentes e psicodélicas das papilas gustativas descritas pela autora.

Existem algumas partes dedicadas a influência fundamental das sobrenaturais avós sobre os amantes da comida que eu achei particularmente apaixonantes.

Fala o personagem principal:

Você acredita que eu também tinha uma avó cuja cozinha era para mim um antro mágico? Creio que toda a minha carreira tem sua fonte nos caldos e cheiros que dali saíam, e que, em criança, me deixavam louco de desejo.”

“E além disso, minha avó transbordava de energia, de bom humor devastador, de uma força de vida prodigiosa que aureolava toda a sua cozinha com uma vitalidade deslumbrante, e minha sensação era estar no centro de uma matéria em fusão, ela respandescia e me envolvia com esse esplendor quente e perfumado.”

Barbery é como minha amiga Lúcia, amante da entidade da avó.

Essa paixão talvez derive de experiência vivida, eu apenas tive uma avó caduca (materna) e avó uma sanguessuga (paterna), logo, sou órfão nesse sentido.


A principal parte do livro para mim é a maravilhosa relação entre comida e palavra, descrita pelo gourmet protagonista que realmente me deixou chocado!

A comida era simples e deliciosa, mas o que devorei assim, a ponto de relegar ostras, presunto, aspargos e galinha ao nível de acessórios secundários, foi a truculência da fala deles, brutal em sua sintaxe desleixada mas calorosa em sua autenticidade juvenil. Regalei-me com palavras, sim, palavras que jorravam da reunião daqueles irmãos campestres, essas palavras que às vezes, ganham em deleite das coisas da carne. As palavras: escrínios que recolhem uma realidade isolada e a metamorfoseiam num momento de antologia, mágicos que mudam a face da realidade embelezando-a com o direito de se tornar memorável, guardada na biblioteca das lembranças. Toda vida só é vida pela osmose da palavra e do fato, em que a palavra reveste o segundo de seu traje de gala. Assim, as palavras de meus amigos de fortuna, aureolando a refeição com uma graça inédita, tinham, quase sem que eu quisesse, constituído a substância de meu festim, e o que eu apreciara com tanta alegria era o verbo e não a carne.”

Lindo!

Os relatos dos outros personagens são ótimos, o livro realmente vale ser lido. Devo aconselhar um dicionário ao lado, Barbery adora palavras estranhas. Farândolas, Florilégios e Périplos permeiam um livro de poucas e deliciosas páginas. Morri chorando com “A Elegância do Ouriço” e saciei minha fome de palavras com o Gourmet moribundo.

Muriel Barbery é de comer e repetir!

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