
O livro Fugitiva, reunião de oito contos da maluca Munro é incrível. Dois dos contos são absolutamente geniais e serão para sempre reverenciados por mim.
O primeiro deles se chama Ofensas e me deixou chocado com a capacidade da autora em deixar os personagens completamente nus para o leitor. Nunca tinha lido alguém que descrevesse os pensamentos e sentimentos dos personagens de uma forma tão honesta. E esse meu elogio à honestidade me parece mais que válido, obrigatório, os personagens tem suas reações e sensações tão bem descritas que dá pra sentir no texto um certo gostinho de vergonha, como se eles tentassem resistir, como se não quisessem se mostrar tanto. A narrativa trata de uma família de pai, mãe e filha adolescente que se mudam para uma cidade do interior do Canadá onde o pai comprou um jornal. Devo dizer que muito do enredo me é muito familiar, Lauren (a filha) teve experiências de criação bem semelhantes a algumas minhas, ela por exemplo vivia cercada pela nudez de seus pais e amigos de seus pais, devo dizer que também cresci em meio a uma nudez despreocupada e natural, majoritariamente mamãe & suas amigas, mulheres dadas a irmandade feminina, e que me dava consciência, assim como a Lauren, de que nossos pais não eram como os demais. A história toda é muito intrigante, e tem um charme especial, um certo frenesi maligno, efeito colateral típico de criança que acha que pode mentir como adulto. Talvez o ponto alto seja Delphine, mulher medíocre que acredita tanto ter encontrado algo que valha a pena em meio ao seu universo limitado e deprimente, que acaba por se tornar até um pouco macabra.
O segundo conto genial é o conto que dá título ao livro. Fugitiva conta a história de Carla, presa em um casamento sufocante em meio a cavalos em uma região rural em que a chuva não dá trégua. A história é de uma riqueza inacreditável. Carla era uma jovem que tinha uma vida convencional e até com certos traços de riqueza, mas que acabou fugindo com o tratador de cavalos, o pobre e sujo Clark. O bruto, impiedoso, e sedutor Clark. O personagem dele me parece como um Liévin (Anna Kariênina), só que malvado. Ele é um homem bravo, que discute perversamente com as pessoas em determinadas situações e é visto pelas pessoas quase como um carrasco. Carla faz faxina na casa de um casal rico, um poeta famoso e sua mulher, ambos velhos. Uma das coisas mais incríveis do texto é a construção erótica da relação entre Carla e Clark, baseada em relatos mentirosos que ela faz sobre o poeta ser um homem safado e sem vergonha, que tenta lhe capturar em suas armadilhas do sexo. Vou citar abaixo uma parte que mostra bem claramente o que estou dizendo.
"Se às vezes ele fica interessado em mim?
O velho?
Se às vezes ele me chama no quarto quando ela não está por perto?
Sim."
"Ele chama você para entrar no quarto. E aí? Carla? E aí o quê?"
"Aí eu entro para ver o que ele quer."
"Perguntas e respostas sussurradas, embora não houvesse ninguém que pudesse ouvir, embora estivessem na Terra do Nunca da própria cama. Um conto de fadas, em que cada detalhe era importante e precisava ser rememorado a cada vez, e com uma convincente relutância, além de risinhos, da vergonha, coisa suja, coisa suja."
Outras delícias do conto vão tomando forma ao longo da história, a mulher do poeta e suas vontades lésbicas, a fuga suas complicações, e Flora, a cabra, que protagoniza cenas quase místicas e acaba sendo ao mesmo tempo símbolo de redencão e sentença final.
Três contos contam a história da mesma personagem, Juliet, e são bons, Silêncio é bastante triste. Acaso faz uma homenagem linda à Anna Kariênina. (eu achei particularmente tocante por me comover com pessoas pobres que colocam sua melhor roupinha.)
*meu parêntese só faz sentido pra quem ler o conto.

O último conto Poderes, está certamente em um lugar inclassificável da literatura, é um conto estranhíssimo. Os personagens não se revelam tanto e os temas vão de amor ingênuo a poderes mágicos ao horror da velhice. Maluca.
Ela ganhou o Man International Booker Prize este ano. ÊEEEEEEEEEEE!

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