quarta-feira, 29 de julho de 2009

Um ruivinho

Eu não resisto a algumas coisas, ruivos e livros da Cosac Naify estão com certeza entre as primeiras colocadas. Eis que em um dia chato no trabalho eu vejo um novo livro do Faulkner, autor que muito me atrai, especialmente pelos títulos lindos (Palmeiras Selvagens, Absalão, Absalão). A Árvore dos Desejos tem o melhor texto de contracapa ever:

Antes de William Faulkner (1897-1962), um dos maiores escritores do século XX, escrever os romances que lhe renderam o Prêmio Nobel de Literatura, ele se dedicou a esta novela infanto-juvenil que já anunciava seu extraordinário domínio da prosa. No dia do seu aniversário, a menina Dulcie desperta com a presença de Maurice, um estranho garoto ruivo que lhe promete uma jornada inesquecível em busca da Árvore dos Desejos. Outras crianças se juntam à caravana rumo à floresta, onde conhecem diversos seres curiosos.
A Árvore dos Desejos alterna o fantástico com o real, em personagens que encolhem, pôneis e escadas que cabem dentro de sacolas, lerofantes (sim, uma espécie de elefante), rio correndo na vertical e... uma árvore mágica


Peguei o livro na hora e o devorei o mais rápido que pude. Fiquei muito feliz, fui completamente tragado pelas aventuras daqueles personagens, que devo acrescentar nada terem de bonzinhos. O elenco da história conta com crianças que não são nada queridas, uma espécie de babá preconceituosa e pentelha, um velhinho senil ótimo, um ex-soldado esquisito e um misterioso e sobrenatural menino ruivo. Maurice, o ruivinho mágico que faz surgir névoa com cheiro de glicínia onde antes havia a chuva, acaba por ofuscar a protagonista Dulcie. Aliás, o Maurice me lembrou muito a minha amiga Lúcia, eu cheguei a realmente imaginar que era ela em criança fazendo parte daquela história, tirando pôneis de uma sacola e viajando despreocupadamente, sempre com um certo distanciamento das outras crianças. Uma criança incomum, aquariana. Uma criança ruiva. O universo criado por Faulkner é dos mais legais que já vi, se eu tivesse lido criança teria enlouquecido! A fantasia ocorre de maneira absurdamente natural e simples, não existem cenários ou hierarquias cansativas, não. Há também uma complexidade que só é possível quando um autor respeita o intelecto da pessoa mais jovem.

Algo encantador, eu li o livro durante o dia todo, em pleno horário de trabalho. Faulkner foi demitido quando trabalhava nos correios por ler durante o expediente! Não é inspirador?!

Uma das coisas que acho valer a pena destacar é uma pequena passagem que achei genial, quando de repente os desejos dos personagens começam a se materializar. Em um determinado momento alguém está com fome e pede algo como "um chocolate", e então um outro fica com fome e pede alguma coisa para comer. O que se materializa para esse outro é algo disforme mas com suas propriedades alimentares. E quando quem pediu alguma coisa reclama, Maurice no alto de sua maturidade e obscuridade inabaláveis diz-lhe que ele recebeu exatamente o que pediu. Outra coisa que achei ótima foi o bichinho flatiplus, as descrições do que existe e do que não existe, os jogos de palavras são incríveis!



As ilustrações do livro são lindas, quem fez foi um cara de Vacaria! Achei incrível!

Adorei ser transportado para um universo onde ainda não se é adulto! Tão bom!




Basta, entrar com o pé esquerdo na cama e virar o travesseiro....

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Quando me sinto sem razão e o diabo Ordinário se insinua para mim, com seu Gás Tédio&Conforto, morno, cheirando a ovo de galinha doente e carne morta, assassino, formador do Exército dos Um e Muito Pouco, que vive para servir ao movimento de alimentar quem manda numa determinada realidade, quando penso que quem não pensa esta sempre certo, calmo e com algum poder aquisitivo e uns adjetivos no bolso, outros na mão de alguém que caminha junto (e também sente medo) e se confortam um ao outro com a moeda adjetivo, nas promessas de vaidade, eu venço sempre este Diabo, o mais certeiro assassino, com a dança desinventada (desinventada pq é natural e porque a cada novo passo é por uma harmônica diferente) pelos corpos que produzem luz própria, que são poucos, mas tem carinhas e costumam nascer irmãos. O meu Querido Sputinik é das danças mais bonitas e vivazes e ditosas. O único mini lamento é que não sou Maurice de corpo inteiro, daí eu casava com ele e perpetuava a nossa espécie.

    Moi, je t'aime e por incrível que pareça, amar é te amar e não porque tu sabe da minha cor e da luz dos meus cabelos (igual a luz dos teus) porque amar é verbo intransitivo e é ver o outro ser o que ele é.

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  3. e eu não creio que o Faulkner foi demitido pelo mesmo motivo que eu fui ?!

    e o mesmo motivo que os professores todos, a vida toda, me desprezaram !

    ai mon dieu, Spu, isto é tão importante !

    merci, merci, merci por ser o introdutor desta história !

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