O microcosmos familiar é uma coisa pela qual sinto profundo encantamento, muito provavelmente por ter uma família (quando digo família me refiro a mãe, pai e irmãos, pelo amor de deus) incrível, rica em psicopatias, vícios, senso de humor, bom gosto inegável e amor pela literatura. Porém, devo confessar que por mais satisfeito que eu seja com meus consanguineos descobri recentemente a irrestibilidade de uma grande família italiana.

Ganhei de aniversário do meu irmão o livro mais hilário e afetuoso do mundo! Nunca tinha lido nada de uma autora italiana, e fiquei completamente apaixonado (eu vivo me apaixonando) pela Natalia Ginzburg. Léxico Familiar começa com uma advertência deliciosa (um oxímoro, não?) em que a autora avisa "Não inventei nada: e toda vez que, nas pegadas do meu velho costume de romancista, inventava, logo me sentia impelida a destruir tudo o que inventara."
O livro conta basicamente a história de uma família, o que pode até parecer banal, visto que o tema é quase onipresente no universo criativo de quase todos os autores, mas a forma como ela nos permite entrar no mundo particular daquelas pessoas é único, nunca vi coisa parecida.
Os personagens do pai e da mãe, são as criaturas mais geniais de todos os tempos. Não tem como não amá-los (quer dizer, eu não consigo imaginar alguém não se apaixonar). Ele é um judeu ruivo grande e gritão, completamente louco, grosseiro, amoroso, rosado. Ele passa o livro inteiro xingando os filhos e a mulher com as frases mais maravilhosas, inúmeras e todas sensacionais:
"Vocês não são pessoas que se possam levar aos lugares"
"Você cortou os cabelos de novo! Que burra que você é!"
"Não me casei com você para lhe fazer companhia!"

( Ela não é deslumbrante?)
Os xingamentos do pai tem significado próprio, burro não quer dizer burro, entre muitas outras coisas. Natalia nos presenteia com uma galeria infindável de anedotas, lembranças, um sem número de histórias primordialmente de família. É tão bom, mas tão bom, extasiante! vou transcrever trechos que acho inacreditáveis:
"Minha avó materna, vó Pina, era de família modesta, e casara-se com meu avô que era seu vizinho de casa: rapazote de olhos grandes, distinto advogado em início de carreira, que ela, todos os dias à entrada, ouvia perguntar à zeladora: -Tem corespondéncia para mim? - Meu avô falava corespondéncia, com um 'r' só e com o 'e' aberto; e minha avó achava este modo de pronunciar a palavra um grande sinal de distinção. Foi por isso que ela se casou com ele; e também porque desejava fazer, para o inverno, um casaquinho de veludo preto. Não foi um casamento feliz."
"Meu pai, ao se casar, trabalhava em Florença, na clínica de um tio de minha mãe, que era apelidado de 'O Demente'."
"Eu não ia à escola, apesar de já ter idade para isso; porque meu pai dizia que na escola pegam-se micróbios.
Enquanto Natalia cresce, dá-se na itália toda a monstruosidade da política de raças da segunda guerra, algo que geralmente eu acho chatíssimo, mas que ela relata de forma absolutamente natural, incrível! O livro é uma preciosidade, é muito lindo, é cheio de felicidade, é quase como um abraço de quem a gente ama muito.
A parte em que ela explica o léxico familiar de fato é mágica, é uma verdade do mundo. Vou morrer de saudades desses meus novos irmãos, pais, avós, tios, agregados!
Ao terminar a leitura, confesso que me senti um pouco órfão.
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