Tive um sonho com um quê (talvez um pouco mais que isso) de erotismo com Jorge Amado. Juro que é verdade. Estávamos em uma mesa, eu, ele, um diretor de cinema, a esposa dele (que não era a Zélia). Depois do almoço, ele e sua esposa me levaram até em casa, de ônibus, não ônibus de viagem, mas ônibus de rua mesmo. Na hora em que me levantei e puxei o cordão para sinalizar meu desejo de desembarque, a esposa de Jorge me deu um beijo no rosto, (ela estava ao meu lado no banco), do banco de atrás, Jorge levantou-se e beijou a esposa. Então virou-se para mim, começou a acariciar minha "masculinidade" e me deu um beijo na boca. Ele tinha um bafo tenebroso, cachaça misturada com tempero forte. O gesto dele porém não parecia de cunho sexual, era quase como um gesto de partilha, um gesto de generosidade, não sei se me faço entender.

Esse meu período de não-trabalho está se tornando cada vez mais maravilhoso. É incrível ter tempo para fazer as coisas que amamos, e descobrir outras, todas que fazem da vida ainda mais mágica. Depois de ler a Natalia Ginzburg, fiquei em pânico. Precisava de algo tão bom quanto. mergulhei em sessões diárias de filmes do Rohmer ao lado do meu irmão. Maravilhosos, indescritíveis. Me afastei ligeiramente da literatura. Meu retorno tinha de ser com algo que fizesse meu coração pular, dançar, ficar perfumado. Tirei da prateleiro a edição linda de 50 anos da publicação original de Gabriela, Cravo e Canela.
Minha ligação, meu amor para com o Jorge Amado é tão grande, que me sinto sempre tão agradecido, quase que escolhido. Não existe nenhuma personagem que se assemelhe a Gabriela. Ela demora a aparecer no romance, primeiro somos convidados a participar da vida em transformação da região cacaueira, e a nos tornarmos ilheenses convictos, grapiúnas. É uma riqueza tão absurda, é tanta lindeza, é um sonho! Quando ela surge, nossa vida ganha cores e sabores inimagináveis!!!!

Gabriela é espetacular, seus quadris marinheiros, seu cheiro de cravo, seu escabelamento, sua dança, seu achar-se bonita, sua não-moralização do sexo ou do amor. Ela é a liberdade e o charme em forma de gente. É das experiências mais deliciosas que já tive. Gabriela se tornou uma espécie de ídolo, mas um ídolo próximo, amigo. Eu também me apaixonei pelo seu andar despreocupado, pés esparramados, por essa rosa de Jericó.
Algumas transcrições, temperadas com o que há de melhor:
"O amor não se prova, nem se mede. É como Gabriela. Existe, isso basta."
"Ela tem qualquer coisa que ninguém tem. Você não viu no Ano-novo? Quem arrastou todo mundo para a rua, para dançar reisado? Creio que é essa força que faz as revoluções, que promove as descobertas. Pra mim, não há nada que eu goste tanto como ver Gabriela no meio de um bocado de gente. Sabe no que penso? Numa flor de jardim, verdadeira, exalando perfume, no meio de um bocado de flores de papel..."
"O cachimbo de seu Nilo era uma estrela, ele trazia na mão direita um cetro de rei, na esquerda a alegria. Atirava, ao entrar, com a mão certeira, o boné marítimo, onde escondia os ventos e as tempestades, em cima do velho manequim. Começava a magia. O manequim se animava, mulher de uma perna só, envolto num vestido por acabar, o boné na cabeça que não havia."
Sensacional. Gabriela me faz duvidar da existência do Inverno.
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