A pianista, escrito pela agorafóbica Elfriede Jelinek, me fez admirar como nunca a violência como instrumento literário. Ao longo de uma narrativa sórdida, íntima e fascinante, o leitor é constantemente machucado pelas palavras, mas a dor nunca é simplesmente dor, é como levar uma mordida safada ou um beliscão erótico: dói, mas é bom (não adianta negar). Erika Kohut é uma professora de piano de seus trinta e cinco anos que mora com sua mãe em um pequeno apartamento. Erika compra vestidos às escondidas de sua mãe. Erika e sua mãe puxam os cabelos uma da outra, se empurram, se arranham. Erika tem um quarto sem cama e sem fechadura.
Ao adentrar esse microcosmos feminino, todos os conceitos de relação mãe/filha que possamos ter devem ser imediatamente atirados pela janela! Nada ali é convencional, cognoscível, nada ali é familiar. A ordem das coisas opera sob uma lógica própria e cruel.
A mãe de Erika a criou baseada na inabalável crença de que a filha era superior às demais pessoas. Erika foi criada para fazer música, para ser uma nobilíssima fazedora de música. Os desdobramentos dessa vontade materna são terríveis, desde sempre Erika sabe que não deve, que não pode se sujar com a vulgaridade onipresente da realidade das pessoas comuns. Até aí tudo bem, existem mães versadas em tantas formas de maldade, eu sinceramente não vejo com pavor uma mãe que queira ter uma filha de maneiras elegantes, focada em sua arte e de preferências refinadas. O problema é que para mamãe Kohut toda a forma de experimentação é uma vulgaridade.
À Erika está negada a possibilidade de experimentar o mundo, de testar-se, de desenvolver-se plenamente como mulher. Ela deve viver para a música, como monja, deve obedecer a padrões de comportamento irreais que na cabeça da mãe configuram virtudes imprescindíveis para uma boa artista. Ela, Erika, vira uma espécie de prisioneira de seu talento (do talento que a mãe lhe atribui). É realmente incrível e irresistível essa idéia de subjugação alimentada por um sistema de elogios e superioridade.
Eu sempre tive inveja dos músicos. Para mim, a música como meio de vida configura de pronto um modo de viver fundamentalmente fugidio, floreado e dionisíaco. Este romance maravilhoso (e tenebroso) me apresentou o universo dos sons e canções de maneira inédita. A perfeição do instrumentista se apresenta muito mais como dolorosa construção (parecida com a obsessão das bailarinas), do que como exercício edificante, divertido e livre. Ser um músico genial exige do aventureiro muito mais do que eu jamais imaginei. Hoje vejo os virtuoses sob outro prisma, eles ainda mantêm sua aura de nobreza, mas são quase amaldiçoados, são pessoas que carregam no tornozelo esquerdo pesadas bolas de ferro cuja chave foi engolida pela vontade.
O tempo passa, Erika vira adulta. Ela não é uma instrumentista de fama internacional, é simplesmente uma professora de piano. Essa não-realização me parece ingrediente importantíssimo para manutenção de seu jogo com a mãe. Apesar de tudo, a mãe vê em Erika a melhor. Por mais doentia que pareça a relação entre as duas, uma coisa é inegável: no fim das contas elas têm apenas uma à outra.
Erika é violenta, ela tem nojo das pessoas comuns, (é sensacional ver que os austríacos podem ser comuns, imundos, como a maioria das pessoas, como os gaúchos), ela reage a tudo com raiva. Como um porco-espinho musical, a professora de piano sente prazer em pegar o bonde vienense carregada de instrumentos e espetar os passageiros; e não apenas espetá-los, ela também gosta de beliscá-los, chutá-los, pisá-los. A consciência de que uma mulher elegante como ela jamais será suspeita de atos desse tipo faz vibrar emocionado o seu coração deformado. Talvez o grande tema do romance seja justamente este: a deformação do coração de Erika.
A privação absoluta à qual a protagonista se submeteu durante a vida fez com que todos os seus desejos se mantivessem encarcerados, e aos poucos fossem sofrendo mutações. Os efeitos dessas mutações (imprevisíveis e potencialmente nefastos) são o que regem o comportamento aparentemente doentio de Erika.Aqui tenho de fazer uma pausa. Sinto uma identificação louca com essa personagem, sinto que somos feitos, ao menos em parte, do mesmo material. A mim foi negada a experimentação amorosa, a livre expressão de minha natureza, por muitos anos vivi em cárcere privado (ainda que imaginário). A consciência de que meus desejos eram errados assombrou minha vida até os dezoito anos. Sei perfeitamente como desejos irrealizados podem ser danosos, sei bem como podemos nos banhar na sordidez na primeira oportunidade que nos aparece por uma simples vontade de respirar.

Erika é uma professora tirana, malvada, inatingível. É do tipo de sujeita à qual nos dobramos em reverências apenas por seu modo de movimentar-se, aristocrático, ruivo, magro e musical.
Erika não quer sufocar. Erika se corta (cenas horrendas). Erika espia casais fodendo ao ar livre (cenas eletrizantes). Erika cheira líquidos masculinos em papéis higiênicos derrubados no chão de cabines de peep show. É inacreditável perceber que esta é a mesma Erika professora, um verdadeiro privilégio poder invadir suas particularidades, às vezes parece que estamos remexendo em memórias que nos são proibidas e que a qualquer momento seremos repreendidos e surrados.

Há ainda uma certa qualidade florestal, de bosque encantado, na narrativa. De quando em quando aparece no texto uma inspirada referência de natureza, mas sempre com uma nota macabra. A mãe de Erika pensa em certo momento: “O tempo é uma planta carnívora extremamente cruel”. A maneira como a autora fala da chegada da primavera na Áustria, por exemplo, é surreal! Junto com as flores, a primavera traz consigo uma onda de acidentes de trânsito. Maravilhoso!
Erika então, se apaixona, por um aluno! Klemmer, o sedutor!
Ele parece um pavão, ela uma galinha velha. A dança romântica entre o pavão exuberante e a galinha depenada é de uma violência delirante, hipnótica, mas nunca gratuita. Não entrarei em maiores detalhes descritivos sobre a relação entre os dois, creio que há de se preservar certo mistério.
Horror, sangue, hematomas, tropeços, destroços, lâminas afiadas.
"A pianista" não é um livro. É um furacão.
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obs:
*O filme baseado no livro (em português "A professora de piano"), ganhador de três prêmios em Cannes (Grand Prix, Atriz e Ator), é deslumbrante! Michael Haneke é um diretor genial!!! Isabelle Huppert é a melhor atriz do mundo, a interpretação de Erika é devastadora!!! O rapaz que faz o estudante Walter Klemmer, Benoît Magimel, é maravilhoso (e lindo!).
* O romance é baseado na vida da autora. Incrível.



Sensacional, manda pra mim, urgente.
ResponderExcluirfinalmente atualizou!
ResponderExcluire a mãe da Gal Gosta ouvia música clássica na gravidez para que a filha virasse cantora.
jesus. dá certo.